Há uns dias
Revia aquele filme
Da filósofa judia
Que há alguns anos
Apontou como curar a dor
Sem utilizar-se do rancor
Ela erudia
E, com sua inteireza, acudia
A falta de empatia
E na sua filosofia
Analisava a baixeza humana
Em discurso que não repudia
Mesmo diante da catástrofe vadia
Ela não sucumbia
Do contrário, seu verbo sacudia
Em busca de harmonia
Com toda sua maestria
Sem se corromper
Sem se interromper
Sem se comprometer
Pelo desejo de vingança
Que a todos aturdia
Sem se entreter
Sem se retorcer
Sem torcer
Pela voz da arrogância
Que muitas vezes preludia
A inquieta intemperança
Que os corações invadia
Mas se colocando na busca, de um dia
Reencontrar a esperança
Do entendimento, sem melancolia
Das fraquezas humanas
E das sombras da insegurança
Que em plena luz estadia
Porém, com sua perseverança
E sua lúcida empatia
Sua abençoada palavra de tolerância
Há muito tempo se espargia
.
Trazendo o olhar para o hoje, no entanto
Deparamo-nos com conflitos em cada canto
Que emergem de dores semelhantes
Afogadas num poço de desencanto
Vemos dicotomias raciais espumantes
Desigualdades das classes sociais dominantes
Despotismos políticos claudicantes
Que bloqueiam as virtudes essenciais
E impõem as atitudes mais humilhantes
Impedindo o bem viver sem espanto
Trazendo à tona reações irracionais
Em cada devoto recanto
No canto de reparação daqueles que
Tiveram violados seus direitos fundamentais
Trazendo, em cada flagelo, um quebranto
Enquanto a contestação violenta
Reclama o seu pranto
Retribuem, no entanto, na mesmo moeda fraudulenta
Terminando por vitimar um outro santo
Tão cegados pelos desejos de vingança
Acabam por enlouquecer um tanto
.
A reflexão fica em torno da questão que agora planto
.
Como olhar para todas estas contendas
Sem sentir-se dominado pela dor profunda
Da memória atávica que nos ata e circunda?
.
Nesse embate, é necessário compreender
A dor que só se cura no eu em si
Na ressignificação de si
No amar a si
Na ação do bem em si
Sem esperar a recompensa em si
Promovendo ação contrária à ofensa recebida
No deflagrar, assim, da dignidade
Do caráter e da ética
De quem age com alteridade
E na postura íntegra do não rebater em si
Sem a imposição da sua verdade
Revelando o melhor do que tem em si
Se despindo de toda sua vaidade
.
Aquele que procura
O melhor dentro de si
Cura toda iniquidade
Que jaz em si
.
E seguimos, então, ponderando
.
Se entendo que alguém é criminoso por matar
O que me torna diferente se também o desejo exterminar?
Se entendo que alguém é criminoso por roubar
O que me torna diferente se também lhe roubo a possibilidade de se educar?
O resultado almejado serve somente para aplacar o meu desejo de vingança?
A lembrança ferida que ainda me balança?
E, em seguida, colocar o troféu no altar da minha arrogância?
Aliviar o meu ego ferido de criança, já que também consigo maltratar?
Ou, no entanto, se desejo olhar para o violador com esperança
Sem descer ao nível de sua ignorância
Sem lhe distratar em nenhuma instância
E, ainda, se escolho retratar, sem intolerância
Em processos intelectivos, filosóficos, educativos
E se permito a outra face do bem apresentar
E se assim eu me encorajar
Possibilito um novo recomeçar
Possibilito um novo estado de coisas
Possibilito o autoperdão avaliar
Possibilito aliviar toda a pressão
Da contida raiva que corrói o coração
Nos libertando desta cíclica condição
Da vítima que se torna algoz
Que se torna vítima de alguém
Ainda mais feroz
.
Esse nosso mundo sempre foi construído
Nesse sistema da disputa e da culpa
Na competição absoluta
E sempre foi pragmaticamente destruído
Pelo poder e pela subjugação
Do quem é mas forte vence
Do quem é mais fraco sucumbe
Na perspectiva animalizada da ganância
Atada aos mecanismos instintivos
Que sofrendo de tal postura infantilizada
Na luta mesquinha pela sobrevivência e preservação
Esculpe o seu eu desvitalizado
Numa alma completamente desmaiada
.
Quando será que nos permitiremos
Navegar por sentimentos transcendentes
Que farão a ponte do animal para o ser espiritual?
.
Essa é a escolha que deveríamos fazer
Essa foi a que a nossa filósofa resolveu fazer
Com a ousadia de romper com o sistema e sua hipocrisia
Contrariando todas as expectativas de poder
Que fariam dela um emblema de soberania
Uma ilusão da soberba alegria
Dos que queriam o usual pieguismo manter
Cheios de autopiedade e mórbido prazer
Enquanto isso, seus compatriotas
Contrariados, sentiram-se ultrajados, idiotas
E na defesa de seus territórios de mórbido lazer
Que a mijo há muito foram marcados em suas ilhotas
Rechaçaram violentos o seu escrever
.
Refletimos, portanto
.
Para pensarmos a dor
Para curarmos a dor
Só conseguiremos obter êxito
Quando tivermos a coragem de assumir
Responsabilidades e alteridades
Como o tal ator
Que experimentou com integridade
E vivenciou sem julgamento ou arbitrariedade
Todos aqueles papéis com tamanha dignidade
Conseguindo, assim, tornar-se empático
Muito além do rancor que leva à insanidade
Pois como diria o poeta Fernando Pessoa
Quem quer ir ao bojador
É preciso ir além da dor
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