Vivemos em guerras por pequenas ilhas
.
Ilhas de poder
Ilhas de ganância
Ilhas de disputa
Ilhas de medo
Ilhas que se isolam
Ilhas em paraísos ilusórios
Ilhas de complexos
Ilhas de hipocrisia
Ilhas de arrogância
Ilhas de autossabotagem
Ilhadas no pseudo prazer
.
Numa volúpia desesperada por conquistá-las
Numa pressa incessante de acessá-las
Numa estúpida e exasperada inquietude
Por habitá-las, por dominá-las
Habituadas a um preencher vazio que jamais se completa
Como sede de água do mar
Que como diria uma amiga poeta
Jamais cessa
.
Dê um passo para além dessas pequenas ilhas
E verás, de longe, a fragilidade dos incontroláveis desejos
Que se almejam insensatos
E verá a debilidade do infláveis lampejos
Que se materializam em furtivos atos
Escravizados aos encantadores realejos
Esvaziados no momento seguinte da sua realitude
Quando são tratados com imensa beatitude
Mas sem nenhum respeito a sua própria sanitude
.
Basta dar um passo aquém dessas dezenas de ilhas de magrezas bulímicas
Basta dar para ver a anemia
Dos indigentes que transitam em suas Villas magníficas de esplendor e glória
Onde o champanhe rega o corpo
Mas a fome assola o espírito raquítico
Que jamais se alimenta dos frutos
Cultivados no solo infértil de tais ilhas tóxicas
Do poder descontrolado
Que desconsola o corpo fatigado
Acobertado por roupas super bem talhadas
Por fora, mas por fora tudo é glamour
Mas por dentro, estão todas alfinetadas por dentro
Arranhando a carne e ferindo na alma
O corpo fatigado que se faz embalado pela música atordoante da moda
Do momento
Quer gritar em seu desconcerto
Seu descontentamento
Caído em seus desacertos narcisistas
Empancakecado pelas maquiagens glamorosas
Nas cirurgias plásticas desformes
Que escondem a real fuça incólume
Do perdedor da sua própria essência
Da sua autêntica luz
Que jamais se reflete no espelho
.
E isso tudo em nome de que?
.
Saia dessa vida de migalha
Para perceber a loucura que se infunda
No desespero competitivo
De ser o melhor
De ter o maior
De foder o major
E toda a sua trupe
Que quer impedir
A minha liberdade
E me fazer menor
Nessa disputa
Puta de ser maior e melhor
Diminuindo o outro no seu coração
E na sua aptidão
Afundamos em ilhas de torpor
Em ilhas de desamor
Em ilhas de rancor
Em ilhas que sozinho
Deixam o meu labor
Um labor isométrico
Um labor sintético
Um labor mimético
Um labor hipotético
Um labor calculado, estratégico
Que não rompe com os pequenos limites
Impostos exatamente para não ver a própria ignorância
Do sentir e do querer
A mesquinhez do pensar e do fazer
A sordidez do desejar que só me faz sofrer
E hoje, pra manter esse paraíso de ilusões doloridas
Surto ainda mais
Mas não se preocupe
É um surto medicado
Psiquiátrico, a base de Rivotril
É um surto alcoolizado
Anestesiado do meu desfavor
Maquiado de belezas frutíferas
Preciso manter as aparências
Preciso manter com todas as forças mortíferas
As conquistas fugazes que, com um simples sopro do vento, leva tudo ao mar
Ou me enterra na ilha
A mesma que levei anos
Por um fio
Entre unhas e dentes
Para conquistar
E por um instante
Me sinto demente
E tudo se esvai
.
Mas não…
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