Ontem fui perdão
Hoje sou um projeto em desconstrução
Ontem fui senão
Hoje um concerto de renaturada desatualização
Ontem fui formado
Hoje sou o soneto improvisado
Do poeta em busca de sua perdição
.
Ando mesmo precisando
De um tempo estimado
Comigo silenciado
Num campo isolado
Ando muito ocupado
Estou muito contaminado
Do lodo enlatado
Do noticiário necrosado
Dos sentimentos enjaulados
Ando, não, claudico
Completamente enjoado
Desse modus programado
.
Nesse mundo desesperado
E de exibição momentânea
Quero ficar à margem
De toda a revolução subcutânea
Essa vendida equação
Que prega uma fictícia redenção
E se diz espontânea
Mas não me convence essa crise
Que fez de tudo uma só miscelânea
Quero mesmo é ficar como o feto enjeitado
Aquele da pregação contemporânea
Recusado pelo corpo autocentrado
E cuspido numa morte simultânea
.
Nesse mundo de torturosa vaidade
Ficar preso ao culto da autoimagem
É o preço caro que se paga à solidão
.
E quanta gente anda aí sofrida nessa perdição?
.
Nesse mundo de virtuosa vulgaridade
Aquele que se apega ensimesmado
Se revolta quando a natureza ilumina a escuridão
Ela o tenta, a duros golpes
No despertar profundo do sono sofismado
Como o machado que corta no fio frágil da consciência
E faz evaporar as sombras
Ao encontrar o reflexo do diamante que reluz
Mas que o desnorteado
Ignora e não se traduz
Esquecido
Do que em si se faz jus
Retornando anestesiado
Para as catacumbas do seu temor
Lúgubre, cheio de pus
.
Num mundo de animosa superficialidade
Ficar preso a uma ideia
É o preço caro que se paga à incompreensão
É um passo atrás para a resolução
De qualquer problema que te exija
Um pouco mais de compaixão
Um valor que vem sendo
Gravemente
Ameaçado de extinção
.
Num mundo de falsas necessidades
Ficar preso ao reconhecimento
É o preço raro que se empenha
Para anuir a felicidade que vira logo um longo lamento
Numa distorção pervertida que só gera sofrimento
Dos que, desatentos, buscam o escamoteamento
Lento
Como uma morte fria ao relento
Como um bode feio, virulento
.
Aquele que paga o preço cego
Em nome do seu harém
Mal sabe o valor que tem
Mas já aquele que não busca o apreço de ninguém
Realiza o labor que lhe convém
E livre não se revolta
E livre não tomba
Nem muito menos se escolta
Nas grades que inerte lhe mantém
.
Ficar preso ao que ditam que lhe convém
É o risco de individuar o sonho
De um outro Zen
Que em vão
Não acalma ninguém
Professam e confessam
Ajoelham e rezam
Na cartilha de uma voz do além
Que ninguém sabe
De onde vem
Vem do mar e vem da terra
Mas não sentem o que tem
Vem do sol e vem do sal
Mas ninguém a prova ou reprova por mais puro desdém
.
Aquele que se apavora com o que não tem
Perde a escola que te ensina a ser ninguém
Já tentou esse intento só para o seu bem?
.
Nesse mundo, os avestruzes, no entanto
Correm em pânico para ser alguém
Mas estão sempre com suas cabeças enterradas no além
E suas bundas eriçadas esperando, no seus cofres, o depósito de um vintém
Nesse mundo de egolatrias desvairadas
Não basta ser alguém
É preciso o desespero de ser refém
E esbanjar suas longas patas que sustentam uma mera lapa gorda de acém
Amorfa de conceitos e repleta de defeitos
De desejos e fantasias tresloucadas
Um oceano de bolhas boladas
Canceladas
Sem correspondências e todas desnaturadas
Que se estouram ao mais simples tilintar
No balangar dos balangandãs do seu desengonçado trem
.
Já a mente do sábio
Ah, essa quer mesmo é trilhar o mundo
Invisível
Sem ser ninguém
Cumpre sua missão
Sem deixar rastros
Nem sequer castros
Nesse mundo
Ninguém o vê
Ninguém diz amém
Pois sabe-o que o des-ser
É a escada que o leva à ascensão
Para muito além florescer
Da sua mesquinha ilusão
Renascer
.
Pois no meio de toda essa confusão
Aquele que se apaga
É o que verdadeiramente se ilumina no meio da multidão
E aquele que se apega
É o que postumamente se arruína no auto da sua inflamação
.
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