O Imperador do Vazio

Vagueio pelos corredores ilusórios da minha solidão

Construí imensos muros e palácios

Salões intermináveis de luxúria e beleza 

Por onde escondo toda a minha tristeza

Sou Imperador do Vazio 

E como um prestidigitador me metamorfoseio

Pelos afrescos da minha redoma límpida de orgulho 

Por onde se escondem meus medos e também a minha coragem

Como inimigos que guerreiam para perderem-se um do outro

.

Na vasta imensidão dos corredores adornados 

O ouro dos tolos reluz aos olhos dos mouros

Para camuflar a minha obscurecida alma 

Que desfila na escuridão da minha ausência de mim

E nos ecos perdidos de uma infância sem fim

Me olho nos intermináveis reflexos dos espelhos cristais e não me vejo jamais

Por onde andará a minha infância de doçuras e travessuras abandonadas?

.

Eu já não me vejo mais em mim

.

Vejo uma farda mutilada sobre o fardo de um velho imperador

Fadado a se sustentar no altar das suas próprias ilusões

E a manter o poder que já não se pode mais

Estou fora do tempo

Mas insisto em viver no momento em que já não se acredita mais

Dos meus reis e rainhas; dos meus príncipes e princesas

Todos Imperadores do Vazio

Escravizadores de almas em nome de uma mentira do poder nobiliárquico

Estou anacrônico, como diria Platão, ou seria Sócrates, muito então?

Não importa. O que importa é que estou fora de mim 

E estando fora de mim quero ter-te só para mim

Quero possuir tudo que não possuo em mim 

Como se o ouro que adorna o fardo pesado do corpo 

Me colocasse em um altar onde sei que não pertenço 

Mas sempre quis pertencer

.

Tentaram destruir a minha ilusão

Tentaram queimar o meu palácio

Tentaram levar à ruina a minha maior diversão

Há tiros de balas pelas paredes adornadas

Há sangue pelo chão, manchando o raro mármore de Carrara 

Vitrais quebrados do meu jardim das mil e uma noites 

De onde ainda vejo minha Sherazade me enfeitiçando

As cortinas brocadas dançando, ardendo e queimando

Ao rufar dos tambores, dos tratores e detratores que foram todos me denunciando

.

Mas nos salões, os bailes ainda reverberavam

As explosões de amor das noites suntuosas 

Das odaliscas sinuosas

Onde, ao mundo, me mostrei nas atitudes mais virtuosas

Tudo era mentira que contei pra mim mesmo, nas delirantes mil e uma noites

Mas todos me quiseram assim. E todos ainda me querem aqui onde estou, enfim
Porque a minha ilusão é também a deles, por fim

.

Ah, eu era Deus

Ah sim, eu sou Deus

Eu ainda sou!

E mesmo que isolado aqui nesse porão, daqui eu não me vou

Mesmo que morto, me manterei ainda onde estou

Sou aquele considerado o último imperador

E por isso, eterno eu sou

.

Fora apenas tempos depois da minha morte imorrida 

Que veio à Adis Abeba o tal jornalista escrever sobre aquela que

Até então, teria sido a minha imaculada jornada transcorrida

Mas ele me chamou apenas de Imperador do Vazio

Minha vida foi, assim, por ele, devassada do avesso para o lado certo

Os depoentes tentaram me desfigurar

Os traidores do estado quiseram me aniquilar

Como ratos escondidos em bueiros 

Me delataram

Feriram a minha imagem cristal

Por inveja e incúria

Porque eles sempre quiseram vestir o meu fardo 

E as minhas medalhas, quiseram sempre ter ao seu lado

A inveja é a ruina do ser 

É o mau de todo o ser

.

Ah! Mas o herói, aqui, sou eu e esse sempre serei 

Acima do bom o do mau, acima de qualquer suspeita

Porque sou da linhagem pura de reis e sultões e isso eles nunca serão

Mas o tal jornalista, de um mero paisinho comunista, já não era mais servil

Inconformado com minha aura magistral 

Ele não suportava um ser como eu tão viril 

Mas também, do que importa falar disso no cenário atual? 

Eu já ali não mais estava, quando ele resolveu remontar o meu ardil 

Quebra-cabeça das glórias do meu império senhoril

Que como outrora, ainda refulge nos espelhos de ouro-anil

E agora, se repete infinitamente nos labirintos de Minh ‘alma vil

Perdida no corpo morto de um imperador infantil

.

Eu sei que, talvez pela falta de coração 

Eu tenha mesmo aceitado a condecoração por todos os meus atos hediondos 

Para me deitar na cama rebordada do poder transviado

Para me furtar a paz na solidão dos prazeres banais

Recobertos de prata e diamantes

Mas o que me resta, agora, daqueles meus dias de rubis e safiras fulgurantes? 

O vestir da farda e o carregar do fardo dos atuais dias torturantes?

Fadado eternamente a reviver o que nunca deveria ter vivido agora ou antes?

Aquele comunista me deixa nu como as bacantes

Mas eu não tenho nem mesmo mais sexo. Estou como os eunucos, todos brochantes

E eu também não tenho mais alma nas vozes desses ratos traficantes

Que se espreitaram por entre os meus rastros inebriantes

E em cada um daqueles que agora me revisitam, humilhantes

Pelas palavras dos traidores da coroa cravejada de brilhantes 

.

Eu não sei mais quem eu sou; eu não sei mais o que eu estou 

Só sei que, agora, passaram a me chamar de Imperador do Vazio

O comunista, talvez, é que tenha iniciado todo esse motim

Que se estabeleceu contra mim

.

A minha sina, por fim

É, agora, vestir a minha farda todo santo dia 

Enquanto minhas medalhas afundam 

Dilacerando o esquerdo do meu peito

E, assim, eles me permitem permanecer no meu devaneio

Pois eu não quero me ver nu! Eu não posso me ver nu! 

Eu preciso tampar o meu sexo e a vergonha de eu ser assim o que eu fiz de mim

.

Lacaio, traga agora a minha farda, meu cetro e a minha coroa.

Já é hora de me transvestir!

Quem irá acreditar nas palavras de um cruel comunista que não quer deixar um nobre imperador, desnudo, com seu sexo na mão, se iludir?

Insopitável

Há entre duas portas um vão

Há entre dois pontos um cão

Havia no meu coração ilusão

Que foi corroída com severa exaustão

Na busca da bendita iluminação

Entre as duas portas achei razão

Entre os dois pontos revolução

Que lavou toda minha paixão

E levou toda minha emoção

A sentir com suave compaixão

E meu espírito à aspirada libertação

Copyright Flavio Graff

Variações críticas

A repercussão crítica 

Que me destrói 

Na revelação crítica

Que intensamente me corrói 

Da reavaliação crítica  

Que me faz herói 

.

Na reflexão crítica 

Que me desconstrói 

Na reafinação crítica 

Que inutilmente me rói

Da resignação crítica 

Que é o que mais me dói 

.

Na resolução crítica 

De Tolstói

Na revolução crítica 

Em Niterói

A recreação crítica 

É para nói

.

Seja na situação crítica 

De Godoy 

Na santificação crítica 

Em Hanói

Ou na superação crítica   

Do playboy 

.

Se a recuperação crítica 

Ainda te mói 

Na reverberação crítica 

Que, no fundo, remói 

Ou se a remuneração crítica 

Nem um pouco te condói

.

Da origem crítica 

Do motoboy 

Na poesia crítica 

De Gogoi

Ou na falta de autocrítica

Do gogo boy 

.

Na destruição crítica

Dos Uamói

Ou na morte crítica 

De um caubói

Sua frieza crítica 

Me desculpe, não desobstrói

.

E essa menstruação crítica 

Anda manchando os lençóis 

Na masturbação crítica 

Que reifica os pitboys

A miscigenação crítica 

Anda gerando inúmeros gois

.

Mas é essa polarização crítica 

Que anda te deixando dodói 

Com a proliferação crítica 

Dos pseudo super-heróis

Fantasiados na alienação crítica 

Que profundamente te corrói 

.

Naquela apropriação crítica 

Que fizeram da minha Caloi 

Numa encenação crítica 

De La Bohème em Illinois 

Aquela temida crítica

Me dizia toi toi toi

.

Quem essa não entender

Que me perdóoi

Pois sou segredo

E jamais revelarei

O meu cói

.

Copyright Flavio Graff

H.A.

Há uns dias

Revia aquele filme

Da filósofa judia

Que há alguns anos

Apontou como curar a dor

Sem utilizar-se do rancor

Ela erudia

E, com sua inteireza, acudia

A falta de empatia

E na sua filosofia

Analisava a baixeza humana

Em discurso que não repudia

Mesmo diante da catástrofe vadia

Ela não sucumbia

Do contrário,  seu verbo sacudia

Em busca de harmonia

Com toda sua maestria

Sem se corromper 

Sem se interromper

Sem se comprometer

Pelo desejo de vingança

Que a todos aturdia

Sem se entreter

Sem se retorcer

Sem torcer

Pela voz da arrogância

Que muitas vezes preludia

A inquieta intemperança

Que os corações invadia

Mas se colocando na busca, de um dia

Reencontrar a esperança

Do entendimento, sem melancolia

Das fraquezas humanas

E das sombras da insegurança

Que em plena luz estadia

Porém, com sua perseverança

E sua lúcida empatia

Sua abençoada palavra de tolerância

Há muito tempo se espargia

.

Trazendo o olhar para o hoje, no entanto

Deparamo-nos com conflitos em cada canto

Que emergem de dores semelhantes

Afogadas num poço de desencanto

Vemos dicotomias raciais espumantes

Desigualdades das classes sociais dominantes

Despotismos políticos claudicantes

Que bloqueiam as virtudes essenciais

E impõem as atitudes mais humilhantes

Impedindo o bem viver sem espanto

Trazendo à tona reações irracionais

Em cada devoto recanto

No canto de reparação daqueles que

Tiveram violados seus direitos fundamentais

Trazendo, em cada flagelo, um quebranto

Enquanto a contestação violenta

Reclama o seu pranto

Retribuem, no entanto, na mesmo moeda fraudulenta

Terminando por vitimar um outro santo

Tão cegados pelos desejos de vingança

Acabam por enlouquecer um tanto

.

A reflexão fica em torno da questão que agora planto

.

Como olhar para todas estas contendas

Sem sentir-se dominado pela dor profunda

Da memória atávica que nos ata e circunda?

.

Nesse embate, é necessário compreender

A dor que só se cura no eu em si

Na ressignificação de si

No amar a si

Na ação do bem em si

Sem esperar a recompensa em si

Promovendo ação contrária à ofensa recebida

No deflagrar, assim, da dignidade

Do caráter e da ética

De quem age com alteridade

E na postura íntegra do não rebater em si

Sem a imposição da sua verdade

Revelando o melhor do que tem em si

Se despindo de toda sua vaidade

.

Aquele que procura

O melhor dentro de si

Cura toda iniquidade

Que jaz em si

.

E seguimos, então, ponderando

.

Se entendo que alguém é criminoso por matar

O que me torna diferente se também o desejo exterminar?

Se entendo que alguém é criminoso por roubar

O que me torna diferente se também lhe roubo a possibilidade de se educar?

O resultado almejado serve somente para aplacar o meu desejo de vingança?

A lembrança ferida que ainda me balança?

E, em seguida, colocar o troféu no altar da minha arrogância?

Aliviar o meu ego ferido de criança, já que também consigo maltratar?

Ou, no entanto, se desejo olhar para o violador com esperança

Sem descer ao nível de sua ignorância

Sem lhe distratar em nenhuma instância

E, ainda, se escolho retratar, sem intolerância

Em processos intelectivos, filosóficos, educativos

E se permito a outra face do bem apresentar

E se assim eu me encorajar

Possibilito um novo recomeçar

Possibilito um novo estado de coisas

Possibilito o autoperdão avaliar

Possibilito aliviar toda a pressão

Da contida raiva que corrói o coração

Nos libertando desta cíclica condição

Da vítima que se torna algoz

Que se torna vítima de alguém

Ainda mais feroz

.

Esse nosso mundo sempre foi construído

Nesse sistema da disputa e da culpa

Na competição absoluta

E sempre foi pragmaticamente destruído

Pelo poder e pela subjugação

Do quem é mas forte vence

Do quem é mais fraco sucumbe

Na perspectiva animalizada da ganância

Atada aos mecanismos instintivos

Que sofrendo de tal postura infantilizada

Na luta mesquinha pela sobrevivência e preservação

Esculpe o seu eu desvitalizado

Numa alma completamente desmaiada

.

Quando será que nos permitiremos

Navegar por sentimentos transcendentes

Que farão a ponte do animal para o ser espiritual?

.

Essa é a escolha que deveríamos fazer

Essa foi a que a nossa filósofa resolveu fazer

Com a ousadia de romper com o sistema e sua hipocrisia

Contrariando todas as expectativas de poder

Que fariam dela um emblema de soberania

Uma ilusão da soberba alegria

Dos que queriam o usual pieguismo manter

Cheios de autopiedade e mórbido prazer

Enquanto isso, seus compatriotas

Contrariados, sentiram-se ultrajados, idiotas

E na defesa de seus territórios de mórbido lazer

Que a mijo há muito foram marcados em suas ilhotas

Rechaçaram violentos o seu escrever

.

Refletimos, portanto

.

Para pensarmos a dor

Para curarmos a dor

Só conseguiremos obter êxito

Quando tivermos a coragem de assumir

Responsabilidades e alteridades

Como o tal ator

Que experimentou com integridade

E vivenciou sem julgamento ou arbitrariedade

Todos aqueles papéis com tamanha dignidade

Conseguindo, assim, tornar-se empático

Muito além do rancor que leva à insanidade

Pois como diria o poeta Fernando Pessoa

Quem quer ir ao bojador

É preciso ir além da dor

Copyright Flavio Graff

Aprendo

Vivo na construção

Investigação constante

Autônoma

De mim mesmo

Vivo na edificação

Inclusiva

Expansiva

Onde não há arquétipo

Mágico de transformação

Desenho técnico

Fórmula, formato

Modelo ou contrato

Na sintaxe do meu substrato

Espaço de sublimação

Vivo desenhando a mim mesmo

Na criativa originalidade

Reinventando a disposição

Na essencial autenticidade

Desimaginando a composição

Na busca da pura humildade

Me ponho em ação

.

Neste movimento

É preciso aprender a fazer da vida

Os seus objetivos profundos

Sem seguir como pau mandado

A opinião dos que te fazem imundo

Pleiteando seus adjetivos e predicados

Perdidos no seus amesquinhados mundos

Nem muito menos nos caprichos desvairados

Que te deixam moribundo

Sem sentido, desbundado

Desorientado, fremebundo

Do contrário, tendo claro para consigo

O legítimo princípio professado

Em motivo bem definido e alinhado

Prosseguindo, não como mero mortal

Automatizado

Despersonificado

Desalmado

Roubado de todo seu arsenal notório

Neste corpo que agora habita, desclassificado

De todo, ilusório, transitório

Mal-amado

Mas seguindo a flecha primordial

Do ser espiritual elevado

Desvendado

Desvelado

Do feliz

Inacabado

Que és

.

Mas o que é feliz?

.

Nada há aqui, porém, da felicidade do egoísta

Que só pensa em si e na sua realização exclusivista  

Bancadas pelo ditado do custe o que custar

Mas da autorrealização não separatista

Que percebeu que tudo o que se exclui

Torna-se pesado fardo, malogrado

Um dardo contra si mesmo voltado

De efeito retardado

E que, cedo ou tarde

Terá que ser retratado

E na sua métrica

Desmesurado

Pois enquanto aprisionado

Jamais faz-se avaliado

Jogado na relva

Como pobre animal

Só lhe resta ser devorado

.

Copyright Flavio Graff

Nas ondas quânticas do significado

Saio da vida banal 

Da estreita linha horizontal

De uma dada superfície mortal

Que esfrega toda sua infame moral

Ignorante do próprio mal

No bacanal de orgias entorpecentes

Desta vida de migalhas ordinárias

Repleta de mágicos atraentes

Que tornam inconscientes

Os ausentes de si mesmos

Transeuntes displicentes

Fantoches de um materialismo

Em plena queda inconsequente

.

Saio desta vida de normalismo

Do seu autoritarismo

Do seu marketismo

Disfarçados de democratismo

Onde nada é suficiente

Na incitação incessante

De um egotismo de autoprazer

Desprovido de todo sentido

Esvaziado de toda profundidade do ser

Onde o valor é apenas o da compra

Negando assim todos os significados

Deixando os seres danificados

Vulneráveis às emoções doentes

Figuram-se felizes, enquanto

Pelos cantos choram impertinentes

.

Tenha a coragem de dizer não

A essa vida impessoal

De pseudo sucesso autoral

Já me levei muito a sério

Querendo a todo custo provar para você

Que sou capaz de resolver todo mistério

Mas agora não há mais para que

Olho para os ideais passados

Como uma fotografia em um jornal desbotado

Que já não me diz mais respeito

O que faço, então, com aquele velho sujeito?

É hora de se desfazer destas histórias

Que já não atendem mais ao meu novo desconceito

.

Olho para o tempo inverso

Rondo seu universo

Sondo seu espaço disperso

No incondicionado que é Deus 

Onde há ondas de possibilidades

Inexploradas

Onde há puro significado

Incompreendido

Onde a consciência quântica

Em entrelaçamento hierárquico

Me permite o colapso anárquico

Crio e recrio

Ajo

No descontínuo

Não local

Além do material

Sem medo de ser letal

Na divina visibilidade invisível

Me torno sensível, imortal

Me redimensiono

Além de onde me aprisiono  

.

Nessa rota cósmica

Dançar é o primeiro movimento

Que me libera do condicionado aprisionamento

E me coloca no entre impensado

Na lacuna, no oco imprensado

Alivio, então, a possibilidade do insight

Para poder me recriar

E na sua harmonia me recitar

Na conjunção de astros e estrelas

Coreografadas com todo esplendor

Me inspiro nas boas novas e no amor

Mas esse, de que falo, é um outro amor

Já idealizaram muito aquele romântico

Agora desperto para o quântico

.

Nessa rota kármica

Sonhar com o velho jornal

Guardado naquelas empoeiradas gavetas

Me foi propulsor

Ele me pede, agora, mais atenção

Ao que se passa no corredor

Da minha emoção

Me pede para deixar na estação

Essa bagagem para outro amador

Talvez as histórias ali em contenção

Ainda lhes sirvam de catalisador

Para liberar toda a sua retida frustração

.

Na plataforma

Pego o trem e repouso

Pouso em sono nos seus trilhos

Que embalam meu inconsciente

No sacolejar das imagens remanescentes

Se misturam novas e emergentes

Por entre as lacunas efervescentes

Me inspiram como bolhas crescentes

No meu sonho me sinto potente

A imensa rocha preta surge indecente

Plana, banhada pelo mar

Como alegoria transcendente

Desnuda no seu clamar

Em resistência e morte ascendente

Com a coragem e a ousadia de enfrentar

A segurança e a sorte reminiscente

.

O que faço agora com meu aporte?

Essa imagem sonho que me deixou potente

Em ondas de colapso e choque nascente

Me impressionam

Me intencionam

Livre para arremessar às águas

O meu eu aquiescente

Cruzar a fronteira do agitado mar

Ou permanecer ancorado ao porto

Sem sequer me atirar

É preciso escolher

Sei que vou navegar

Nas infinitas ondas quânticas

Do teu significado

É impreciso, é provável

É possível, é irrevogável

Nas mil faces do teu além-mar

Dos teus abismos

Dos teus perigos

Na superfície espelhada que reflete

A intransparência incessante do teu ar

Copyright Flavio Graff

Na dissolução do divino

Enquanto meu ego 

Me situa como prego 

Prego a liberdade 

Como um cego 

Martelando a verdade 

Que sempre renego 

Minha vaidade 

Cultiva ilusões que rego

No círculo de variedades 

Do circo que carrego 

Das virtudes que relego 

Nenhuma contrariedade 

Pode me mostrar o que nego 

Nem pode me dizer da vacuidade 

Que nas minhas atitudes entrego

Perversões com prazo de validade

Mais do que são, não são nada 

Mas não, não desapego 

Da fantasiosa vivacidade 

Que na velocidade do meu mundo-lego

Me alimento com voracidade 

Sem pensar, autoemprego 

Meu alter ego

Sem deixar qualquer adversidade 

Arrancar o meu prego 

Imunizo meu ego 

Dos venenos do credo 

Copyright Flavio Graff

Todo teu sucesso

Todo teu sucesso 

É também o meu sucesso 

Todo teu fracasso 

É também o meu fracasso 

Aprendi a ver com os olhos da natureza 

Onde tudo é igual 

E tudo é diferente 

Onde tudo é múltiplo 

E tudo é singular 

Onde tudo é pertencente 

E tudo é paciente 

Entre o morrer e o renascer 

Tuas curvas representam 

Os acentos que acrescentas 

Na minha caminhada 

E teus aposentos 

Significam o apogeu 

Da minha vitória 

Nessa longa estrada 

Estranha entrada 

Que me leva 

A todas as tuas almas 

E a todas as minhas glórias

Toda a tua beleza 

É também a pureza do meu olhar 

E todo o teu olhar reflete o meu céu 

A imaginar

Onde quer que tu desenhes

Onde quer que eu me recrie 

Tu estás e eu estarei 

Me redimensionando 

E eu te reponderando 

Carregando em mim 

Todos esses fragmentos 

De ti 

Que também são de outros 

Eu coleto em mim 

Tantos mil pedaços 

De todos 

Em micropartículas

Que me transformam 

Que me revolucionam

Reverencio em mim 

O que fui ontem sem você 

O que sou hoje com você 

E o que serei amanhã 

Além de você 

O inteiro vivo 

De cada pedaço

De quem já esteve

E de quem já estará em mim 

 

Copyright Flavio Graff

Depois

Depois que o terremoto passou

Depois que as fronteiras caíram

Depois que os egos se despiram

Depois de depor

Depois de um tempo

Depois da chuva

Depois do sol

Depois dos anos

Depois dos santos

Depois do vento

O meu coração depôs

Recolhido no convento

Ele finalmente se pôs

Copyright Flavio Graff

Duas ou três coisas que a vida me ensinou

A vida me ensinou algumas coisas

Que até então

Me passavam em vão

Ela me ensinou que

Quando a paz foi estabelecida na alma

Nada que está em volta me abala

Que quando o amor foi estruturado no coração 

Nada do que está fora me é indiferente 

Que quando a lucidez domina a consciência 

Nada do que está por fazer fica estacionado 

Que quando a esperança está consolidada na emoção 

Nada que está em colapso me aflige

Que quando a fé governa as minhas percepções 

Nenhum descrédito me derrota  

Que quando a compaixão estabelece o vínculo 

Nada que me agride afeta as minhas relações

Pois aprendi que o único caminho que me traz a felicidade

É a paz de compartir

Sem a paga exigir

Copyright Flavio Graff