Eu nunca pensei que pudesse pintar um quadro
Comecei com umas linhas abstratas que não sabiam onde iam me levar
Um rabisco aqui
Uma esfumaçada dali
E eis que, por entre aqueles escombros de traços insuspeitos
Surge uma mulher escorçada
Apoiada em uma janela
Como num sonho hiper-realista de Hopper
Ela fitava os passantes
Que gesticulam agonizantes
Enquanto seu olhar longínquo, destemido
De pinceladas fortes, marcantes
Escondiam um profundo gemido
Pensava ela que devia seguir
Sair dali
Embora parecesse um pouco distraído
Seu olhar percebia muito mais do que estava ao seu redor
Como nos esquizofrênicos traços da Guernica de Picasso
A revelar as dores do seu mais profundo fracasso
.
Uma atriz, era ela
Interpretava o seu papel de tinta óleo
Como uma metáfora bem ensaiada
Daquela famosa obra de geometrias cubistas
Cruzava o palco de uma janela a outra
Para ver melhor o que se passava lá fora
Ou era lá dentro?
Pensava se aderia a revolução
Que queria destituir o desditado ditador
Ou se apenas ligava a televisão
Em busca de pura distração
Mas era toda estudada, a sua fiel ação
Vivia ela em um drama Tcheckoviano
Escondendo algo que lhe parecia leviano?
Dada à gestos que aparentavam meticulosa precisão
Se encostava languidamente no piano
Num retrato da realidade em busca de absolvição
Seguia ironicamente assobiando
Como pode alguém assim, mentir tão bem um coração?
.
Nossa atriz, no entanto
Buscou alívio na segunda opção
A tela iluminada mostrava, então, uma jovem abrindo a janela de sua modesta habitação
Não era mera repetição
Que arrastava, agora, a primeira ela praquela solidão
Que contempla, então, naquela segunda impressão
A jovem na nova tela
Era mobilizada pela convulsão dos inconformados
Que caminhavam pelas ruas, transtornados
Contudo, a pixelada tela
E a sua jovem bela
Não eram como um retrato de Pissarro
Eram, ao contrário, um contato com um pouco mais de tensão
Já que a imagem fílmica tem essa propensão
O canal 4 passava A Guerra dos Ópios
Um clássico da filmografia chilena sobre a morte de centenas de milhares no período da castração
Adaptado de um best-seller de literária ficção
Que por sua vez, tinha sido baseado em um poema contra a feminina opressão
De uma autora anônima que há muito já havia morrido de inanição
Mas, no entanto, sua verve continuava ferindo e gerando comoção
Em toda uma nova geração
.
E de lá, das suas curvilíneas entrelinhas
Contava a história da chinesa clandestina
Quando ainda era jovem menina
Que, num rompante, fecha a janela e a cortina
Pega a seu casaco abrigo
Corre para o seu quarto na surdina
Passa um batom lilás
Enfia uns sapatos rotos, cheirando ananás
E veste a sua máscara de gás
Enquanto o olhar do leitor nervoso vai atrás
Mas ela não espera, sai batendo a porta
Deixando tudo pra trás, na matina
Meu olhar tem que ser rápido pra acompanhar aquela
Que alucina
Na sua descida das escadarias em espiras
Numa velocidade estonteante
Em vertiginosas marginais
Conflitantes e ilegais
Chego a ficar tonta com aquela imagem
Circular, que se aglomera em cascatas virtuais
Girando, girando, agora zonza na TV
Pois é, chinesa, tu reclamais
Mas quem te viu, quem te vê
Foi publicada em livro
Agora tu, aparecendo na TV
Como a famosa revolucionária do ABC
Naquele sagrado obsoleto aparelho de estado
Todo a sua mercê
.
Mas eis que aquela chinesa clandestina
Conseguiu sair do prédio
Para alívio da minha retina
Ela, então, dobra a esquina
Pra aderir a manifestação
Aquela inocente menina
Precisava de uma dose dupla de cafeína
Pra agir como feroz leonina
E assim se colar na turbina
Feito uma canção de Marina
Entoando a sua atroz sina
Era só mais uma voz de rotina
.
E, atrás dela, centenas seguem em convulsão
Na verdade, não sabem bem pra onde vão
Sentem tanta dor, mas não sabem a razão
Acham que assim vão aliviar o torpor do seu coração
Pensam que agredindo, violentando, vingando-se
Estarão saciados dos ódios que carregam que nem seus são
E nessa pulsão ancestral, o leitor, atento, vira a página
Seguindo a chinesa pelas ruas, em comiseração
Também desatento, desacreditado
Enganado
Até que ela se depara com uma fotografia no chão
Em tons desbotados
Revela um olhar desangrado, rasgado, negrado
Pisado por muitos anos
Não havia sobrado muito
Ou quase nada
Daquele papel couchê com marcas
Das centenas e violentas pisadas
Das macelentas vísceras violentadas
.
Era mais um retrato do abandono de si mesmo
.
O que sobra, no entanto, daquele fato
Deixa entrever
Um olhar desmoronado
Que ali se deixou fotografado
Ele chora sobre a mesa ao escrever uma carta, que diz:
Ao amor da minha vida,
Aqui me despeço, me despedaço
Não vou mais voltar
Não consigo mais prosseguir!
Vou sair da linha de frente
Vou abandonar a marcha pra sempre
Não acredito mais em nada, não confio mais em mim!
Mas aqueles são apenas sete versos imprecisos
Cabalísticos, incisivos, encontrados naquele fotograma do amor
Enquadrados pela luz que se inclina diagonal, forçando a janela lateral
Dando certo tom artificial àquela fotografia
Atemporal
Que não nos deixa entrever mais do que o essencial, o banal
O que se passa naquele aflito coração de animal
Que um dia já fora canibal
.
A sua caneta rola no chão
E a vida se esvai por um grão
E ele dobra a carta com meticulosa precisão
Prendendo-a sobre um retrato de mulher
Pintado, pendurado na parede de pura ilusão
E sai. Para sempre. Vai embora. Não volta mais.
Não me procure. Não me espere. Não me fere.
Nunca mais
.
O retrato na parede, no entanto, traz de volta àquelas silhuetas já vistas no começo
Pinceladas de delírio que desvelam sua amada
Entranhada de volta
Encostada na janela
Olhando pelas frestas aquela mesma revolução que se espreita sem sombra de resolução
Estamos de volta ao início do poema
Seguindo na esperança de absolvição
Lá fora, os gritos de caos pedem a cabeça do ditador do Nepal
É um dia de cão
Embalado naquele tenebroso vendaval
Enquanto de lá, ela não cessa em tentar decodificar as entrelinhas daqueles sete versos
De despedida do seu amor
Escritos naquele carta
Presentes naquela foto
Pisoteada naquela manifestação
Observada naquela televisão
Expressadas naquelas pinceladas
De uma atriz de pura ilusão
Que nesse poema só queria mesmo encontrar sua redenção
.
(love is all we need)
.
O que não estava dito ali?
Dali, ela não sairia
E prali, ela sempre voltaria
Na esperança de que um dia
Ele, do meio daquela multidão digitalizada, viria
Impávido que nem Salvador Dali
Livre para amar
Pra pintar novos ( )
E pra tirá-la daquele eterno palco cíclico dali
Ou será melhor ligar a TV e esperar ali?
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