As mil e uma vidas

Nascer, viver e morrer

O existir além do morrer

Em outra dimensão

Em outros mundos

Imperceptíveis ao meu olhar

Onde na vasta imensidão

Do universo há tanto o que descortinar

Infinitos mistérios a se atinar

.

Lá, o meu Espírito continuará como clarão

Das ondas mentais que persistem

Na reverberação do que enseja

O mais profundo do meu coração

Ardente de pacificadora coalizão

Ou como perturbação das ondas mentais que resistem

Na reverberação que chora

O mais dissonante da minha canção

Que minh’alma entoa agora

.

Na escuridão dos meus olhos

Na desunião dos meus solos

Na solidão dos meus colos

Lá, a minha mente é como a caixa de pandora

A abrir e fechar os seus males

Seus infernos, seios internos

Libertando-os para o mundo,

Sem curá-los

Mas sem nunca, perder a esperança de recuperá-los

.

No amor, no entanto, me redimo

Se me perco, me reencontro

Noutra vida, noutro corpo

Ou se me prendo no pequeno cerco

Que me delimito por hora

Reaprendo amanhã e me permito

Na oportunidade do renascer

Em um novo corpo, um novo acervo

Uma nova aurora

.

Trago comigo meu antigo estofo de valores

Para me reviver naquilo que deixei

Esquecer, no que é impossível de ser

Ou prosseguir confiante naquilo que ainda saberei

Aquecer, no que é verossímil ao ser

Essa investigação constante do saber

.

Nessa caminhada buscada

O sábio acumulou em si múltiplos valores

E agora pode escolher com-paixão como resolver

Os mais intrincados e emblemáticos problemas do viver

Sem trair o seu próprio ser

.

O nascer e morrer em diversos planos

Em diversas faces nos ensina:

A pertencer

A permanecer

A enternecer

A florescer

.

São caminhadas desafios

Para curar os desafetos

Onde em cada corpo afio

A minha coragem

A minha linguagem

A minha imagem

Onde a cada passo desfio

Em uma linha tênue

E separo o que me traz a paz

Daquilo que contrafaz

.

Não tenho medo de morrer

Sei que vou vencer

Nas etapas mil desse processo

Voraz

Não desconfio

Deixo o barco correr

Pois sei que nas correntezas

Por onde navego

Há uma força divina

A soprar as velas das minhas atitudes

E  a providencialmente tudo reger

.

Copyright Flavio Graff

O vírus do amor

Depois de um tempo, cansados de toda aquela confusão materialista 

Depois de um tempo, consumidos por toda aquela exaustão consumista 

Depois de um tempo, trancados na sua própria solidão egoísta

Começaram a questionar o valor de tudo aquilo que vinham, com tanto empenho, construindo

Todas aquelas imagens bem esculpidas e tramadas 

Todas aquelas cidades bem edificadas e planejadas

Tudo aquilo que pautavam como pessoalmente divertido

Sexualmente prazeroso

Filosoficamente sensato

Artisticamente bem-sucedido

Socialmente amistoso

Politicamente glamoroso… E correto!

Pra justificar as discrepantes escolhas que deixavam o espírito a míngua

.

Começavam as máscaras a cair? 

Começavam os impérios das luzes que ofuscavam a própria lucidez a ruir?  

.       

Finalmente!

Depois de muito cansaço

Nesse jogo forçoso que se impunha eram necessárias, no entanto, vestir outras máscaras

Protegendo a face do temido vírus do amor

Quando ele nos fazia ver o que não queríamos

Quando ele nos fazia desgostar do que tanto gostávamos

Quando ele nos trazia para dentro de um mundo desconhecido

Pra perceber o quanto degustávamos o gosto amargo da escravidão de um pequeno e mesquinho mundo materialista

Votado aos interesses pessoais e egoísticos

.

Mas os venenos dessa materialidade que haviam sido destilados, por séculos, nas bem tramadas consciências iludidas

Consumiam, agora, a si mesmos, os mesmos autores da trama bem ensaiada daquele realismo pictórico de ilusões pandemônicas

Perturbavam seus isolamentos

Deixando muitos desolados

Como crianças perdidas na escuridão

.

O que fazer, então, sem aquele mundo de fama, dinheiro e sexo liberado?

Aquele que queria disfarçar o vazio eterno!

O que fazer sem aquele mundo do poder humilhante e inconsequente?

Aquele que queria controlar no fora, o que estava incontrolável dentro!

O que fazer sem aquele mundo da arrogância?

Que queria esconder conflitos e fugas da mais que baixa autoestima

.

Mas era necessário promover essa paralisia

Para enxergar o invisível

Para penetrar o impenetrado

E chamar a atenção para todo o caos que ganhara status de normal

Preciso era, então, o amigo, também invisível aos olhos

Cegados pelas luzes do nosso tempo

Pra revelar a fragilidade de todo aquele castelo de cartas

Agora a se desmoronar

A se desmantelar

.

Mas tinha gente apegada a ele, a gritar

‘Deixa o vírus matar, mas vamos a economia salvar!’

.

E depois que toda essa tempestade passar?

Nada mais agora será como fora antes?

Nunca mais seria, nem poderia?

Nem quereria?

Nem deveria?

Dependeria de que?

Dependeria de quem?

Haveria mudança?

Pra onde?

Pra quem?

.

Era um tempo de reflexão. 

Necessário, isolado, solitário

Pra se olhar no espelho do seu íntimo infinito

Sem temor

Mas com amor

.

Era um generoso clamor

,

E nesses tempos de crise

Nesses tempos de reflexão forçada 

Reforçada era a atenção em si

Muitos ficaram, no entanto, com medo do desconhecido você em você em si

É apavorante olhar essas camadas desconhecidas

Para aqueles desacostumados do exercício do ver em si 

Amar em si 

Estar em si 

É apavorante!

.

O que é ser?

O que é que será?

.

Muitos, apegados, se desesperam também com o medo

Do fim que não é fim

Pois já estavam mesmo perdidos

Na finalidade essenciais de suas existências 

Se confundiram em metas e metodologias

Iludidas do mundo irreal lá fora 

E confusos criaram ainda mais confusão

Pra distrair o tempo e não perceber

Que distantes estavam de si mesmos 

Miles away 

E o mais grave 

Não perceber que sem amor não se vive

.

Mas sem essa, aqui, de amor-ego

Que só pensa em satisfação primária dos caprichos sentimentais.

Amor no sentido pleno e único da palavra:

O servir o outro 

.

E como essa palavra servir incomoda o ego, não é mesmo?

.

Incomodou o seu?

.

Copyright Flavio Graff

Como escrever um poema sobre a alegria?

Comece com uma frase sobre a (               )

E siga fazendo uma alegoria com (               )

No terceiro verso escolha um sentido inverso <<<<<<<<<<

Pra criar um paradoxo, mas que desconcerte o (                ) perverso 

Desprevenido que se excita com as suas (                   ) 

Encantadoras de qualquer objeto obscuro do (               )

.

No início da segunda estrofe adicione um (                 )

Do tamanho (            ) de um bonde 

Pra poder levar aquele que (                )

Para um universo de múltiplas (               )

Daí pra frente faça um vai e vem de (               )

Entrecortados com um bom senso de (                )

.

(           ) chamado a ler aqui algo que (            )

E desnorteia o próprio (             )

Pra criar uma atmosfera de (          ) 

E assim gerar camadas diversas de (        )

Essa tal liberdade que você dá ao (             )

Pode ser muito (               ) já que a alegria 

É relação muito (                ) hoje em dia 

Mas eu não quero soar (            )

Só porque te convidei a participar do meu (             )

Não me julgue (               ), por favor 

Afinal quero que você ao ler esse poema fique (               )

.

Então para pontuar melhor o lugar onde você quer (            )

Pra deixar mais claro tudo aquilo que você quer (           )

Cante uma canção de (             ) e respire

Depois de um certo (                )

Prepare uma dialética fonética onde o (                ) incauto 

Possa olhar pra si e buscar essa tal (                )

Dentro de si 

Aí, quando tudo isso (              ) provocado dúvida 

Você sentirá que terá uma (              ) enigmática 

Mas nunca terá uma falta de (               )

Ela sempre vira, de (              ) forma 

Voltará como um aceno do (               )

De esperança de que nem tudo está (               )

Fazendo com que seu mundo venha a (           )

.

A alegria é assim 

As vezes me deixa sem (             )

E quando estou no (          )

Como o vento que sopra (            ) o seu olhar 

Ela surge assim (      ) profunda e leve ao seu lado (       )

E o que ouço nada mais é que o (          )

Do amor de (          ) em sua (          ) emanação (        )

.

Copyright Flavio Graff

Conto de Natal

Nesse Natal eu peço mais uma vez muita fantasia pra esconder a minha falta de alegria 

Nesse Natal eu vou encher a casa com muito enfeite pra maquiar a minha falta de deleite

Nesse Natal eu vou mandar cartões com votos de contentamento pra fingir o meu devotamento

Nesse Natal eu quero bastante excitação nas compras, no encontros, na comilança até que eu consiga esconder a falta que faz a paz na minha esperança 

Nesse Natal eu queria pedir um só presente ao Papai Noel, mas minha lista já estava tão cheia de decepções…

Que nesse Natal eu precisei pedir muito mais pra compensar toda a dor das minhas ilusões 

Prezado, amado, Papai Noel
Ou deveria ser Jesus Cristo?
É aniversário de Jesus?
Ou doação do saco vermelho?
Mas quem é esse Jesus?
Não sei, tanto faz
Só sei que se me atender, é isso que me satisfaz 

Prezado, amado, ( ) 
Desculpe, mas nesse Natal eu precisei exigir mais
Por meu saco estar esvaziado
Minha paciência ter se esgotado 
Precisei fingir essa falsa alegria cristã, caridosa e humilde, que me redime e me salva 
Mas eu só finjo
Eu não acredito 
Mesmo que por alguns segundos
Só pra ter alguma atenção 

Estou tão carente de alguma comoção 
Preciso de drama pra dar sentido a minha ação 
E me manter preso na minha gostosa solidão 

Nesse Natal, na verdade, eu não quero ser salvo por Jesus
Nem pelos pedidos que coloquei na meia do dono do saco vermelho
Pois depois que tudo isso passar
Eu quero mesmo é voltar pro meu lugar 

Da egotrip que me assola 
Da radicalismo que me isola 
Do ceticismo que me esfola
Do criticismo que me embola 

Mas no próximo Natal eu prometo, prometo mesmo, que vou fingir tudo de novo 
Eu vou reclamar tudo de novo 
E vou enfeitar tudo de novo
Pra esconder as cicatrizes do meu mundo triste 
Que passa fome
Que se mata por ganância 
Que separa por importância 
Que humilha por medo e arrogância 
Chafurdado em pura ignorância 

Eu prometo, eu juro que vou fingir como nunca antes
Que nada passou e que tudo vai passar
Mas eu sei que não vai 
Nesse Natal, não vai
Nem no outro 
Nem nos demais
Nunca mais 

Copyright Flávio Graff

Rariv (ler ao contrário)

Eu nunca pensei que pudesse pintar um quadro 

Comecei com umas linhas abstratas que não sabiam onde iam me levar 

Um rabisco aqui 

Uma esfumaçada dali 

E eis que, por entre aqueles escombros de traços insuspeitos 

Surge uma mulher escorçada

Apoiada em uma janela 

Como num sonho hiper-realista de Hopper

Ela fitava os passantes 

Que gesticulam agonizantes

Enquanto seu olhar longínquo, destemido 

De pinceladas fortes, marcantes 

Escondiam um profundo gemido 

Pensava ela que devia seguir 

Sair dali

Embora parecesse um pouco distraído  

Seu olhar percebia muito mais do que estava ao seu redor

Como nos esquizofrênicos traços da Guernica de Picasso 

A revelar as dores do seu mais profundo fracasso  

.

Uma atriz, era ela

Interpretava o seu papel de tinta óleo 

Como uma metáfora bem ensaiada 

Daquela famosa obra de geometrias cubistas

Cruzava o palco de uma janela a outra

Para ver melhor o que se passava lá fora 

Ou era lá dentro?

Pensava se aderia a revolução 

Que queria destituir o desditado ditador 

Ou se apenas ligava a televisão 

Em busca de pura distração 

Mas era toda estudada, a sua fiel ação 

Vivia ela em um drama Tcheckoviano

Escondendo algo que lhe parecia leviano?

Dada à gestos que aparentavam meticulosa precisão

Se encostava languidamente no piano 

Num retrato da realidade em busca de absolvição 

Seguia ironicamente assobiando

Como pode alguém assim, mentir tão bem um coração?

.

Nossa atriz, no entanto 

Buscou alívio na segunda opção 

A tela iluminada mostrava, então, uma jovem abrindo a janela de sua modesta habitação 

Não era mera repetição

Que arrastava, agora, a primeira ela praquela solidão 

Que contempla, então, naquela segunda impressão

A jovem na nova tela 

Era mobilizada pela convulsão dos inconformados

Que caminhavam pelas ruas, transtornados

Contudo, a pixelada tela 

E a sua jovem bela 

Não eram como um retrato de Pissarro 

Eram, ao contrário, um contato com um pouco mais de tensão 

Já que a imagem fílmica tem essa propensão 

O canal 4 passava A Guerra dos Ópios

Um clássico da filmografia chilena sobre a morte de centenas de milhares no período da castração

Adaptado de um best-seller de literária ficção

Que por sua vez, tinha sido baseado em um poema contra a feminina opressão 

De uma autora anônima que há muito já havia morrido de inanição 

Mas, no entanto, sua verve continuava ferindo e gerando comoção 

Em toda uma nova geração 

.

E de lá, das suas curvilíneas entrelinhas

Contava a história da chinesa clandestina 

Quando ainda era jovem menina 

Que, num rompante, fecha a janela e a cortina

Pega a seu casaco abrigo 

Corre para o seu quarto na surdina 

Passa um batom lilás 

Enfia uns sapatos rotos, cheirando ananás 

E veste a sua máscara de gás

Enquanto o olhar do leitor nervoso vai atrás 

Mas ela não espera, sai batendo a porta 

Deixando tudo pra trás, na matina 

Meu olhar tem que ser rápido pra acompanhar aquela

Que alucina 

Na sua descida das escadarias em espiras 

Numa velocidade estonteante 

Em vertiginosas marginais

Conflitantes e ilegais 

Chego a ficar tonta com aquela imagem 

Circular, que se aglomera em cascatas virtuais  

Girando, girando, agora zonza na TV 

Pois é, chinesa, tu reclamais 

Mas quem te viu, quem te vê 

Foi publicada em livro

Agora tu, aparecendo na TV

Como a famosa revolucionária do ABC

Naquele sagrado obsoleto aparelho de estado 

Todo a sua mercê 

.

Mas eis que aquela chinesa clandestina 

Conseguiu sair do prédio

Para alívio da minha retina 

Ela, então, dobra a esquina

Pra aderir a manifestação 

Aquela inocente menina

Precisava de uma dose dupla de cafeína

Pra agir como feroz leonina 

E assim se colar na turbina

Feito uma canção de Marina 

Entoando a sua atroz sina 

Era só mais uma voz de rotina

.

E, atrás dela, centenas seguem em convulsão 

Na verdade, não sabem bem pra onde vão

Sentem tanta dor, mas não sabem a razão

Acham que assim vão aliviar o torpor do seu coração

Pensam que agredindo, violentando, vingando-se

Estarão saciados dos ódios que carregam que nem seus são

E nessa pulsão ancestral, o leitor, atento,  vira a página

Seguindo a chinesa pelas ruas, em comiseração 

Também desatento, desacreditado

Enganado

Até que ela se depara com uma fotografia no chão 

Em tons desbotados 

Revela um olhar desangrado, rasgado, negrado 

Pisado por muitos anos

Não havia sobrado muito 

Ou quase nada

Daquele papel couchê com marcas 

Das centenas e violentas pisadas 

Das macelentas vísceras violentadas

.

Era mais um retrato do abandono de si mesmo

.

O que sobra, no entanto,  daquele fato

Deixa entrever 

Um olhar desmoronado 

Que ali se deixou fotografado 

Ele chora sobre a mesa ao escrever uma carta, que diz:

Ao amor da minha vida,

Aqui me despeço, me despedaço  

Não vou mais voltar 

Não consigo mais prosseguir!

Vou sair da linha de frente 

Vou abandonar a marcha pra sempre

Não acredito mais em nada, não confio mais em mim!

Mas aqueles são apenas sete versos imprecisos 

Cabalísticos, incisivos, encontrados naquele fotograma do amor 

Enquadrados pela luz que se inclina diagonal, forçando a janela lateral 

Dando certo tom artificial àquela fotografia  

Atemporal 

Que não nos deixa entrever mais do que o essencial, o banal 

O que se passa naquele aflito coração de animal

Que um dia já fora canibal

.

A sua caneta rola no chão 

E a vida se esvai por um grão 

E ele dobra a carta com meticulosa precisão 

Prendendo-a sobre um retrato de mulher

Pintado, pendurado na parede de pura ilusão

E sai. Para sempre. Vai embora. Não volta mais.

Não me procure. Não me espere. Não me fere.

Nunca mais

.

O retrato na parede, no entanto, traz de volta àquelas silhuetas já vistas no começo

Pinceladas de delírio que desvelam sua amada

Entranhada de volta 

Encostada na janela

Olhando pelas frestas aquela mesma revolução que se espreita sem sombra de resolução 

Estamos de volta ao início do poema

Seguindo na esperança de absolvição

Lá fora, os gritos de caos pedem a cabeça do ditador do Nepal

É um dia de cão 

Embalado naquele tenebroso vendaval 

Enquanto de lá, ela não cessa em tentar decodificar as entrelinhas daqueles sete versos 

De despedida do seu amor

Escritos naquele carta

Presentes naquela foto

Pisoteada naquela manifestação

Observada naquela televisão

Expressadas naquelas  pinceladas

De uma atriz de pura ilusão 

Que nesse poema só queria mesmo encontrar sua redenção

.

(love is all we need)

.

O que não estava dito ali?

Dali, ela não sairia

E prali, ela sempre voltaria 

Na esperança de que um dia 

Ele, do meio daquela multidão digitalizada, viria

Impávido que nem Salvador Dali

Livre para amar

Pra pintar novos (                  )

E pra tirá-la daquele eterno palco cíclico dali 

Ou será melhor ligar a TV e esperar ali?

Copyright by Flavio Graff

Cada macaco no seu galho!

Um só conseguia falar de coisas feias 

Pra onde quer que ele olhasse, ressabiado 

Eram feiuras pra todo lado 

Não imaginava que fora de si pudessem haver coisas tão belas

Não conseguia ficar calado 

Tudo que via era um fardo

E seguia assim, caminhando abalado 

Se sentindo sempre ferido com um dardo

.

Em seu ego machucado 

Achava que precisava descontar

Tudo que pensava não haver comprado

Desconto daqui, exígua 

Desconto dali, reclamava 

Barganhava pra se sentir menos pobre 

Mas na sua desvalia não sabia o que o faria nobre

Com dificuldade 

Tirava o dardo enterrado 

Por longos tempos 

No seu couro amargo

Subia prontamente no muro largo

Que cercava o paraíso dos animais 

E já com o dardo na mão 

Estava pronto pra atirar e ferir o leopardo

Que, no entanto, era o rei de dar o salto certeiro 

Sem nunca se fazer de pardo

Era de odor verdadeiro 

Fragrância genuína, 

Diferente do alcoviteiro 

Porém, como aquele um não acertava o bicho por derradeiro 

Ficava desanimado 

Inconsolado, abria o berreiro 

.

O leopardo é gato esperto 

Traz em si a sabedoria 

Dos que escapam inteiros dos dardos que não lhe dizem respeito 

Carrega em seu peito 

Uma flor de direito 

E vê tudo sem os olhos do suspeito 

Seu caminhar desenhante provocava muito despeito 

Mas ele não era farsante 

Não desdenhava mais do que tinha o passante 

Ele pensava que o macaco em seus galhos vivia a vida em outro movimento – que são múltiplos

Achava tudo muito tocante 

Espertos macacos! 

Não estão presos a nada 

Mas sempre se balançam no ar com a afetividade da gravidade lunar

Enquanto que o que fala das coisas feias 

Em cima do muro ficava pesado, a rosnar 

Prensado, se fingindo equilibrar

Dos abusos de desautoridade 

Que vinham de si mesmo ao ruminar 

As pedras que ingerira ao vaticinar 

.

Os passarinhos são tão bonitinhos 

Já viram os azuis?

Eles são tão alegres sem motivo de ser 

Sem motivo de dar 

Sorrisos aos que os veem passar

Só pela simples vontade do ser em amar 

.

Viu como é fácil viver?

.

E já dizia o sábio ao amanhecer 

Observai os pássaros no céu 

Quando subir no seu muro pra exercer 

Inadvertido 

O julgar e o condenar

O excluir e o mortificar 

Experimente olhar para cima 

E não para as sombras

Irrefletidas do seu próprio eu ferido

Largado, desamado, armado com as bombas

Ignóbeis 

Que sem saber dos reais prazeres da vida 

Não vai gozando do belo que lhe rodeia a todo instante 

E sem saber o que de direito ele tem, odeia a todo o restante 

Que não lhe convém

.

Desce do muro rainha 

Desce do teu vendaval  

.

Eu quero mesmo é a doçura das minhas flores 

Que conversam comigo todo dia 

E me ensinam 

A cicatrizar 

A renascer 

A persistir 

A revolver 

A resolver 

A envolver 

A emudecer 

A embonitecer

A noite eu vou te tecer 

um lindo pijama de lirios 

só pra te aquecer 

E seus tormentos esquecer 

.

O que você quer, então, escolher pra viver?

A paz dos lírios dos campos

Dos pássaros no céu 

Dos macacos de galhos em galhos 

Desafiando a gravidade dos graves 

Dos leopardos verdadeiros 

Superando os entraves traiçoeiros 

Ou os dardos feridos, morteiros

Como insolentes pangaraves

Todos sorrateiros

.

Copyright by Flavio Graff

Ruínas solitárias de mim mesmo

Caminhamos pelos templos abandonados de nós mesmos

Somos tempos de miséria espiritual na qual 

Nos ferimos incessantes pelas trevas do não saber

Prosseguimos inconscientes sem perceber 

Que testemunhamos a nossa própria estagnação

Ignorância

Preconceito

Procrastinação

Incensados pelas torpezas do mundano prazer

Perdidos nos templos da contemplação fantasmática

De fugazes fantasias-fanáticas 

Prostrados como ruínas solitárias de si mesmos

Em um continuo inconstante desprazer

Tai então a realidade do meu ser 

Apegado a tanta ganância, me fado infantil 

Entrevado em pura arrogância, me vendo hostil 

Embotado em tanto egoísmo, me faço mercantil 

Emudecido por tantos conflitos, me finjo viril 

Revoltado, pego minhas palavras e atiro-as a esmo como um poderoso fuzil 

.

E nesse desperdício incontido 

Me desespero, inconstante

Mas não o revelo a qualquer instante

Pois preciso esconde-lo de mim e de todo e qualquer passante 

E, assim, nesse caminhar arfante

Não cesso de olhar só pra mim 

Fascinado pelo meu ego excruciante

Me cego onde quero me ver obstinado farsante

E não deixo de pensar no meu prazer extasiante

De espírito tisnado, meliante

.

Me busco onde me perco 

Me sinto num cerco 

Onde a dor assim só aumenta meu esterco

A cada passo que tento me enganar, vem um tormento 

A cada medo que quero escamotear, um lamento 

Reclamar sem parar é o meu talento 

Apontar os erros sem me olhar, o meu fomento 

Culpar o outro sem cessar, meu incremento 

Odiar a vida sem me reinventar, um escapamento 

Estou tão cheio de tudo que me sinto flatulento 

Tudo ao meu redor está a afundar como num voo turbulento 

Fico banido, sem ar 

Como pedra afundando no mar 

Me sinto zunido, nojento 

A correnteza me arrasta

Mas não sei nem mesmo me governar, que desalento 

Mas exijo que o governador saiba não roubar o meu jumento

Ser ético e sobre o bem de todos preservar, que sacramento!

Onde quer que vou parar nesse pensamento?

Que arrombamento!

Por favor, me sugira então um outro movimento

.

Um momento

Noutro dia, que já foi hoje

Vi uma ruína de imensas pedras 

Construída há muitos séculos 

Mas que agora submergida no mar 

Eram apenas pedras sobre pedras 

Deterioradas pelo corrosivo salgar 

Devoradas pelo seu exclusivo rosnar 

São elas de um templo que não existe mais 

E, lá contemplativo, pensei da ruína ao mar: 

Ela já tanto presenciou nesses antigos tempos

Tanto que já não é mais, tanto que já foi 

Tanto que queríamos com desespero e loucura 

Que acabou, esvaneceu

Esqueceu-se de si mesma 

Desapareceu.

O que foi que aconteceu?

Com toda aquela bravura das senhoras e senhores do apogeu?

.

Mas eis que, de repente, vi por ali rondar 

O mesmo vulto de outrora

Vestido em mentirosa brancura

Que agora te apavora

Circundando aquelas precárias pedras aquárias

Era ele um morto-vivo carregando os fantasmas de Aurora

Com a mesma ansiedade

Sem a mesma ternura

Que sem demora evapora

Sem ficar, sem amar 

Sem perceber, sem clamar 

Sem permanecer, nem sequer acalmar

Escurecendo o alvorecer dos novos tempos 

Em pura loucura

Apenas por não saber se doar

Que demora!

Ele ainda chora

.

Tai que eu via os mesmos velhos egoísmos 

E os mesmos afogados aforismos 

Sem se sequer percebessem seus complexos abismos

.

E é ai que eu me pergunto: 

Até quando preservar essas ruínas de si mesmo? 

Até quando manter os altares da sedução perdidos a esmo?

Quanto tempo ainda olhar pra fora buscando o que só dentro encontrarei

Na solidão de mim mesmo?

Pois como diria a poeta 

Lá mesmo esqueci que o destino 

Sempre me quis só 

.

Sem saber que pra se estar só 

Num deserto, sem saudades 

Sem remorso 

Só…

Sem amarras 

É preciso desapego

Pra alçar voos leves 

É preciso aceitação

Pra se desprender

Das pedras arruinadas

Das ilusórias paixões 

Dos templos emporcalhados

De tantas distorções 

.

E pra se saber onde pisar

É preciso se estar humildade

E assim se deixar de ter

As inconscientes convulsões 

É preciso se estar renúncia

Pra se estar e integrar

Às desconhecidas imensidões 

Já que só a consciência clara

Entregará indubitável paz aos corações 

Copyright by Flavio Graff

Moro na ilusofia

Tantas bobagens colecionadas 

Tantos desesperos alucinados 

Tantas bagagens cheias de nadas 

Tantos temperos calcinados 

.

Passo os dias buscando desesperadamente 

Troféus de reconhecimentos daquilo que nem mesmo acredito que sou 

Sou artista, sou famoso

Sou político sou forçoso

Sou profético, sou farsoso

.

A vida digital idealizada em telas eletrônicas

Espelham a ilusão de um mundo vazio que ecoa

E amplia as minhas pequenas conquistas

Fazendo-as parecer gigantes invencíveis 

As minhas fake news de cada dia 

Na minha fantasia ainda sou infantil 

E nesse banal dia a dia me levo do nada à ponte que partiu 

Pro meu triunfal naufrágio pueril

.

Mas assim me sinto rainha, a mais bela tainha 

Enlatada numa saia justa 

Tão entalada quanto a minha angústia  

Me visto, me pinto, me vendo, me falseio de outra galinha 

Mas quem me compra não sabe o produto ilegítimo que ganha na bainha 

De onde tiro a espada e meto na farinha 

Ah! Que gana de ser muito e ser tudo ao mesmo tempo

Tudo ladainha 

Chega de verborragia 

Quero mais dessa balinha 

Que me leva na onda, pra longe, toda saidinha

Quero por todas ser olhada e invejada

Almejada e alvejada pra não sentir o sabor amargo dessa solidão que me alucina 

.

No meu quarto escuro

No entanto, escuto 

Sou forjado

Limitado

Desqualificado

Prazo de validade

Exasperado 

Engano a quem

A mim ou a você?

.

Quem me vendo não me vende

.

Mas no mercado altamente cotado 

Meu couro reluz como gado coitado 

Coito assim nunca se viu igual 

Mas como não se faz mais fado como antigamente 

Reluzo a minha paixão de ego e idolatria 

Sem muita maestria 

Que ressoa profunda, mente 

Na sua ingênua mente 

.

Mas me diz uma coisa

O que você mesmo faria?

Se no meu lugar fosse à padaria 

Compraria sonhos de Santa Maria?

Pra aplacar essa fome louca

Eu tudo faria 

.

E você aí, o que me daria?

Coleiras pra amar ou asas pra penar?

.

Mas eu só quero mesmo é putaria

.

No paraíso das minhas delícias 

Continuo, contínuo, contudo, confuso 

Passo o tempo 

Passo as horas 

Passo a roupa 

Passo a passo no compasso preocupado com o desmonte do que o outro construiu

Com suor do seu ardil 

Pra soerguer meu palácio de fel 

Ê preciso por o outro debaixo do meu bordel

Sim de fato 

Me sinto baixo, mas dissimulo, invento, enveneno  

Por que o que possuo no mundo das ilusões dos átomos aglomerados 

Não escamoteia a minha depravada dor de ator?

Ou é só assim que mostro meu valor?

Num papel mal interpretado te dou todo o meu torpor 

Numa vida mal dissimulada qual seria o meu clamor?

.

Dói viver assim de vazios, sabia?

Se não sabia, saiba agora que:

.

Tem gente que acha que sente prazer 

Tem gente que se ilude com falso fazer 

Tem gente que mente o próprio desprazer   

Vazios, vazados 

Vejo nas ruas olheiras de olhares hipnotizados

Seguindo seus afazeres diários

Robôs bobos bolados   

Com apreço e afinco pelos seus honorários 

Mas dessentidos do seus propósitos primários

É a mentira que contaram do que importa conquistar pra viver

Nos plenários do samba

Da mentira mil vezes contada 

Dançada na intocável farsa dos amanhãs ordinários

Que na minha conveniente ilusão de verdade

Prefere permanecer intocada em lugares precários

Mas onde é que eu estou?

Não me diga nem mais onde eu vou 

Não vou 

Daqui não saio

Ninguém daqui me tira 

.

Vamos lá, então, ao que minha avó dizia:

Viver é bom

Já corromper é perder o dom

E viver de ilusão é como não saber o tom

É como vir ver de uma música sem saber o som 

Suspirava ela tocando seu acordeom

.

Copyright by Flavio Graff 

Nem me atrevo ao erro

Escrevo sobre o erro de errar sem culpa

Escrevo, mas não me atrevo a pular uma linha sem olhar

As palavras e deixar passar tudo aquilo que não devo

Transparecer do meu todo ainda ignorante

Das minhas páginas vividas que nunca foram extasiantes

.

Meu ego lascivo me deixa entorpecido na imagem que quero transparecer

Quero parecer brilhante

Quero ser marcante

Nas letras do jornal excruciante

Não me passo de barato comerciante

.

Na minha vida de poeta ou de esteta

Eu me exercito a criar e recriar

Mas mesmo com o primor da técnica exemplar

Que imitei para não me arriscar

Olho e re-olho com medo de vazar

As minhas fraquezas diante do teu olhar

.

Escrevo e reescrevo

Transcrevo meus sentimentos

Mas são todos mentirosos

Não refletem um só momento

Já que a minha descoragem me impede

De escrever o errado

Para me salvar do aflição do desacerto

E não me tirar do delito de querer só estar certo

Mas eu continuo, não aceito errar um simples acerto

.

Nem as rimas funcionam, nem a verdade impulsionam

.

Nas minhas paredes tem papéis

De paredes de cartas de outros bordéis

De fantasias de inúmeros motéis

Que me limitam ao que nunca soubemos ser fiéis

Nem nunca vamos saber ser a nós mesmos

.

Sobre o seu entreato de fato

Escrevo sobre os papéis do ator

No teatro

No filme

Não idolatro  

Mas pra que mentir a vida do ator?

Se ela já vem pra vida cheio de torpor   

Mas a minha escrita, porém, é tão mentirosa

Quanto medrosa é a atuação da desqualificada melindrosa

Ou seria, no contudo, uma escrita melindrosa, cheia de artefatos

Polifonias e argumentos sintáticos fracassados

Diante da mentirosa atuação de uma medusa medrosa?

Pornografia barata, escrita obscena

Quem sabe pelo temor adeus

Seria pavorosa minha nebulosa escrita, toda nervosa

Como se a melindrosa fosse a própria ultrajante, despida mentirosa

Insuportável e sebosa, viajante literária tal qual Visconde de Sabugosa

Na fantasia jocosa de M. Lobato (era ele um palhaço de milho?)

.

Era um cérebro vazio de cem-timentos

Que porém me alivia de uma porrada de condicionamentos

Mas mesmo assim vivo repetindo um drama ordinário nos meus desaparecimentos

Onde sou o protagonista

Autor de minha própria vista

O que mais olho, mas não quero ver

E que sai da minha própria pista

Me joga nos atalhos das fugas sem conquista

Do des-ser de complexos de mim mesmo

Emvista (no que?)

.

Eu tenho medo de escrever errado

Eu assumo, mas não escrevo, nem uma linha sequer sem o verbo no lugar parado

Eu tenho medo de mostrar quem eu não sou

Eu tenho meus medos e agora os revelo assumo pois resolvi escrever sobre o tolo medo de errar que me angustia só de pensar que aqui vou deixar você me ver pecar (será que uso vírgula aqui?)

Minha respiração não deixa

E essa dor no peito não para de sufocar

De me angustiar

De me castrar

De me cadastrar

Eu só posso acertar

Virgular pra que?

E continuo errando em querer acertar – é vero que olharei de novo essa frase

Pra mil vezes verificar se o seu sentido sentido (repito o ato pra me sentir seguro do que digo)

É o delito desejado para impactar o efeito transloucado e depois destemido, desmentido e alucinado

Tudo truque pra impressionar o incauto e-leitor (ou o e-leitor incauto?)

Quem você prefere ser – digital ou eleitoral?

.

Quero descontinuar as palavras

E trazer a tona um verbo sem vocábulos

Ou uma sentença sem pronomes oblíquos ou sujeito composto que me condene ao eterno desgosto

E não me fazer daquele que não deixa passar

Nem um frase qualquer,

Nem uma vírgula bem-me-quer

Pra não me envergonhar de um traço sequer

Como nunca sei terminar o que comecei

Ficarei por aqui, inconcluso, dessa vez

Incompleto

Discreto

Porém, correto

Contraditório

Até que o erro nos repare

Copyright by Flavio Graff

Encontro nas coisas vagas para criar

Escrevo numa sensação 

Surge-me uma palavra jogada no chão 

Abandonada em qualquer vão 

Me ajoelho diante dela e apanho 

.

Pego cuidadosamente aquele clarão 

Aquele flash que irradia uma imensidão 

De sentidos que não estavam ali até então 

Me curvo diante deles e acompanho 

.

Observo lentamente sua profusão 

No papel ela me devolve o olhar em fusão 

E me tira da minha própria confusão 

Me dobro diante dela e me acanho

Aquela palavra transporto com a mão 

E escrevo seus versos com o coração 

Eles abrem percepções não sentidas no meu inexplorado porão 

Me dobro diante de suas belezas e componho 

.

Diante da minha fraqueza inundo a minha pequeneza com tamanha profusão 

Da beleza que o espírito precisa pra renunciar sua torpeza e seguir feliz pela sua própria gratidão 

É áurea a sua riqueza quando liberamos a nossa insopitada solidão 

Mas com franqueza quem não quer sentir esta imensidão?

.

Do poema escrito na oração 

Cometo a magnífica ação 

De amar sem ter que pedir perdão 

Pois meu liberto coração 

Já não mais despista a coroação 

De momentos sublimes de contemplação 

De simples objetos-palavras encontrados pelo chão 

Na mais pura revelação 

Dessa singela e fugaz percepção 

Que nos assalta sem pedir retribuição 

.

Benjamin chamaria tudo isso simplesmente de iluminação 

Gibran diria leia meus versos com a mais simples devoção 

O amor não pede doação 

Borges os faria despertar a sua mais profunda emoção 

Nos labirintos intrincados da sua criação 

Copyright by Flavio Graff