A gente se mete nuns labirintos
Sem nem saber pra onde estamos indo
Vagamos de trem em trem
Sem saber o que nos convém
E ainda olhamos cheios de desdém
Pra tudo aquilo que o outro tem
O que é que eu busco
Nesse vai e vem
Desse desenfreado trem
Que me atira no que não há além?
Desnorteado
Me tiro do meu próprio bem
Aquilo que não dou conta que minha alma não tem
Desalmado, sigo porém
Ora, lá sei eu aquilo que me convém?
Me dizem para seguir por aqui e por ali
E eu, sem titubear, me meto de novo naquele trem
Ora pois, se me dizem que ele é um atalho paro o meu próprio bem
Que mal tem?
Você por acaso já descobriu o que é que a banana tem?
Sempre me disseram que de trem em trem a galinha enche o saco
Então eu sigo até encher
Me dizem então pra descer aqui ou ali
E eu prossigo cego alegre a ser refém
Voce lá sabe o que é que a bandana mantém?
Pra que pensar em coisas do além
Se eu sei que eles aqui me contém
Atado aos meus interesses gerais muito bem
Bem, bem mesmo eu já nem sei também
Só sei que
Desci hoje desse trem
Eu juro, eu juro que estava bem
Seguindo o nosso cotidiano harém
Mas foi quando eu já entrava em outro vai e vem
E de repente, inoportuno, me deparei com o assombro de mim mesmo e pensei?
Pra onde mesmo eu estava indo nessa nuvem do além?
Foi quando percebi que seguia
Passos de outro alguém
Que distraídos arrastavam jornais
Com notícias tristes de Belém
E percebi que inadvertido os seguia porém
As lia estupefato
E as repetia sem as compreender de fato
E criticava sem a menor compaixão e tato
Já que não tinha as rédeas do meu próprio bem
Eu quero é sair desses túneis de outrem
Que me intoxicam inúteis e me desnutrem como ninguém
Mas vejam só como me fiz de tatuagem
Nu, vivendo num corpo estranho de outro alguém
Mas vejam só que solidão a havaiana tem
Arrastando notícias sujas pelo chão daquele trem
E eu que noutro dia peguei o que pensei ser um quântico trem
Que me levou pra mesmo lugar de onde eu sai nem sei quem
Foi só ali que percebi imobilizado o quanto não vivi cem
Dez ou mil anos sem ser alguém
Fora do meu eu mesmo; um labirinto de ninguém
Seguindo passos de jornais vazios
Arrastados por pés de desdém
Me sentindo esplêndido ninguém
Quero descer desse trem
Quero atravessar essa plataforma que me deforma
Quero dessa vez pegar um trem quântico
Pra criar um novo universo semântico
E me tirar desse trágico romântico
Que afoga o meu sagrado cântico
Nas trevas putas desse eu náufrago transatlântico
Que não me faz bem
Copyright Flavio Graff