Para L. Nascimento


Eu queria te escrever um poema de linhas indiretas

Pra te dizer do amor, do afeto, do carinho e da admiração

Onde a beleza de suas conexões imagéticas

Pudessem estar contaminadas da coerência dissonante de um afeto perdido

Mas as minhas palavras só queriam dizer uma coisa

Que me desconcentrava da vida e faziam a vida mera vida desvivida

Mas que coisa era essa de um instante devastador

Instaurar um estado de absorção intrigante e eloquente

Esse estado que mobiliza a mente, o corpo e a vontade de viver

Eu que fui pra ti viver

Eu que fui percorrer pra em ti renascer

Nascimento de uma nova primavera

Que com seus beijos começaram

Uma nova vida

Eu que fui e sendo o que nunca fomos

Nada mais será como outrora nas manhãs de primavera

Onde estar contigo foi a mais preciosa verdade daquele fugitivo então

Então que te digo com palavras essa coisa tola da paixão

Não era mero em vão…

Era profundo sentir em ti então?

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No dia em que fui mais feliz 


Ela me mandou ser feliz 

Falou: vá pra casa e seja feliz!

Que ser feliz era a coisa mais importante da vida

A conquista da minha felicidade, ela já dizia assim pra mim

É pra isso que eu acordo todos os dias

.

E, por isso, o povo quer ser feliz a qualquer custo

.

E, enquanto isso, ela paga qualquer preço no comércio da sedução

Cansando seu charme em qualquer vão

Paga qualquer preço no carro bárbaro que mata

Sonhando no trânsito em estar mais farta

Paga o mais alto preço nas alianças dos pactos amorosos

Rebaixando-se em vinganças de maltratos jocosos

Paga a mais alto preço nos vestidos de babados dourados

Que se descosturam nos incontidos rebolados desvairados

.

Os sonhos de outrora 

Pendurados nas vitrines do hoje

Se fantasiam de aurora

E reluzem essa felicidade provisória

Profunda e ilusória como o espelho

Que devolve ao seu admirador

O seu olhar aterrador

Ele se olha, mas não se vê;

Ela se desnorteia, mas crê 

Que a novidade mas velha com sotaque de estrangeira

Provoca os olhares do moço que a vê

Vê mas não enxerga, exagera

Mas que devaneios mais frágeis são esses

Que seguram esses anseios da moça

Que a cada dia fica mais louca? 

Mas ela privada de sonhos se diz infeliz

Mas como? se os próprios sonhos a impedem do ser feliz?

.

Se olharmos o antigo ditado condiz:

De consciência em consciência a galinha despe o verniz

Ela queria ser feliz

Mas eu queria era ser a sabedoria do feliz 

Pra melhor saber escolher o que aqui a você se diz 

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O verbo ser no vazio é plural


Elas surgiam pra preencher o vazio incompleto que eu sentia 

Palavras palavras palavras

Todas inconclusas para lavrar 

Destituídas de seus provérbios para louvar 

Sendo sem sentidas para lavar

Sem seus predicados de ação para cobrar 

E quanto mais elas vinham 

Mais vazio me tinham

Palavras que invadiam esvaziam

Como a fina bexiga diante da agulha perdida no palheiro

Como o bote sírio diante da longa travessia no nevoeiro

Mergulha perdido no abismo por não ser marinheiro

Na fuga de almas vazias que extorquiam

Nem mesmo o que já não tinham em dinheiro

Era o tiro do amor de palavras preenchidas e completas

Que naufragavam em pleno mar feiticeiro

Palavras repletas de odor, concretas e abjetas

Não! Não era esta a mesma palavra

Que me navega e descalavra

Não! Não era as mesmas que puniam

Eram duas ou três outras incontidas que reuniam 

Uma infinidade mesmo temidas assumiam 

Impreenchidas, lacunadas, interrogadas; baniam

Uniam e depois de esvaziadas diziam 

O verbo ser no vazio é plural

Quem são você que ao enfrentar me lê?

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Tudo aquilo que contém em mim


Toda a história contida em mim

É toda a estória contada por mim?

Se me lanço em mares desconhecidos

Qual eu de mim navega pelas ondas imprecisas?

Aquele que já ecoa nos registros reconhecidos?

Ou aquele que revigora os sentidos adormecidos?

Se o navio naufraga numa travessia turbulenta

Sobre ondas de novos clamores e antigos temores

Saberei em qual destroço me sustentar?

Saberei eu como um cisne flutuar?

Ou com a destreza de um golfinho desabituar?

Quando entrei nessa vida tudo o que eu mais queria era resignificar

Do avesso para o lado certo comprometido a tudo revirar

Desfazer a cantiga que em plenos passados

Me embalou pelos épicos naufrágios a me desvairar

Pra me reconduzir aos éticos sufrágios a me desvirar

Mas será que agora a história se repete?

E o que eu escolho me torna sórdida manchete?

Ou me reinvento sereno e secreto

E deixo de ser aquele dilacerante machete

E me torno penetrante marchete?

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Insonoro


O silêncio é o mais enigmático sonho

Ele vem e você não escuta

O silêncio é tão pragmático quanto bisonho

Ele vem e você não perscruta

O silêncio é mais emblemático que suponho

Revela toda forma bruta

O silêncio não é menos matemático que enfadonho

Revela a essência enxuta

Desvela a vida a dissoluta

Vela a alma resoluta

Aproximando o ser da vida absoluta

.

O silêncio é a mais louvável luta

Silencia perante a disputa

Esvazia diante da labuta

.

O silêncio é o mais enigmático sonho

Ele vendo, mas você não computa

E é aí você vem e me diz que fica P…

.

O silêncio é o mais diplomático sonho

Vem delicado, mas você não disfruta

Sem dominar o linguajar da sua insonora escuta, refuta

Oh silêncio, quem és tu que tanto quero saborear tua inodora fruta?

Mas que, ainda assim, quando te aproximas tanto me assusta?

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Mero Lápis


Me perguntaram se eu era original

Se era eu quem escrevia aquilo mesmo que eu tudo temia

Se eu não preferia ser apenas lápis banal

Que escreve documentos e ofícios no gabinete marginal

Sem precisar de sentimentos e artifícios

Envolvimentos exacerbados e sacrifícios

Mas o relógio, no entanto, naquela conjuntura cerimonial

Já havia dado três voltas inteiras, como de habitual  

E eu completamente perdido no meio daquele bacanal

De letras pervertidas e palavras fofoqueiras

De versos cruzados nos troncos das pitangueiras

E alguém ainda preocupado com a veracidade da minha voz derradeira

De falsas ideias e de filosofias corriqueiras

Quem mais era eu do que um grafite sem estribeira?

Quem menos do que o seu palpite sem ribeira

Desafiaria a minha vocação de escrita verdadeira?

Eu sou quem sou, lápis humilde na mão do senhor

E se obedeço ao comando da mão do meu pastor

Que me guia em seu favor

É porque considero e levo a sua farsa esguia com todo meu ardor

Assim como o cego que confia no seu cão-guia com todo seu amor

Mas me diga com toda sua sincera apatia ou com todo seu fervor

Se você também mero lápis pudesse ser ator

Quem na sua atitude o distinguiria do redentor?

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Eu não sou


Olhei o meu reflexo nos espelhos distantes

E ele estava de costas olhando os belos horizontes

Eu vi a nuca daquele ele como eu nunca havia visto antes

E se eu me visse de costas? O que eu veria do que eu nunca me vi em mim?

Essa é uma questão para matemáticos e físicos

Que viram o universo do avesso pro lado certo

E dizem que não viram nada demais

O que eu vou dizer?

Eu que não sou dado a essas conjunturas astrais

O meu rebolado não me permite girar assim como os planetas

Ao redor de si e do rei gameta

Se eu giro ao redor fico tonto e logo caio

Não me vejo, retraio

Se me retiro, subtraio

Se permaneço, de soslaio

Oh raios, onde foi que fui parar nessa métrica de luas e estrelas?

Elas nem sequer veem as suas costas

Porque elas não as possuem, ora bolas

Sendo redondas, sem começo nem fim…

Porque eu fui cair nessa pergunta logo aqui no fim?  

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Entre dois caminhos


Estou cansado de fingir quem eu sou

Mas se eu finjo quem eu sou

O que resto do que eu não sou?

Para mim esconderijo do que não sobrou

Onde estará tudo aquilo que eu não vou

Tudo aquilo que eu não dou

Tudo aquilo que me adulterou

Estou cansado desse des-ser de mim

Dizem-me que se escolho estar entre dois caminhos

Não estarei nem num lugar nem no outro

Nem em mim

Nem fora de sim

Eu queria era uma palavra reconfortante

Que me aliviasse da dúvida dilacerante

Mas ela não chega

Ela não vem

Ela não atravessa a máscara do que eu não sou

Ela não encontra o destinatário

Ausente de si

Me vendo a mim

Não vejo mais do que o que você diz que vê de mim

De nada ajuda

Sua visão é, ainda assim, mais limitada do que a minha

O meu paraíso se esconde é dentro de mim

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Pérola que rola


Uma pérola caiu no chão

Quanta indignação quando viram

Que ela rolava pelo rasgo sujo do assoalho

Logo assim perdendo todo seu valor?

A cada volta que dava ao seu redor

Maculava ainda mais o seu brilho e perdia sua dignidade

Vendia a sua imaculada virgindade

Arranhava o seu brio e vertia para sua derradeira derrocada

Mas como assim? diziam provocadas

Ela é a pérola que já havia coroado de beleza a rainha transtornada

E o invejado brinco da princesa encantada

Fascinado a tiara da jovem duquesa recatada

Mas agora mostrava toda sua fraqueza?

Como tu caminhas, oh pérola minha

Na baixeza de um assoalho, dilacerada

Demasiada suja, outrora turquesa

Já não se sabe mais quem tu és, oh alteza

Mas agora se permitindo aos mais torpes maus-tratos

Vestida toda de trapos aceitas agora toda a falta de gentileza

Vivendo de migalhas de pratos imundos

Não te atormentas essa tua magreza?

Não te envergonhas de tanta pobreza?

Me desculpe a franqueza, mas…

Uma pérola perdida de encantos, ela era de fato

Suscito, no entanto, que aos prantos pérola se encontrava pelos cantos

Escondendo-se daqueles que lhe haviam negado seus acalantos

Oh pérola minha quando é que tu vais voltar ao status de ser minha rainha?

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Pas de Deux


Duas cadeiras conversam entre si

É uma conversa fiada, porém silenciosa

Meticulosa como a trama do universo que transcorre ao redor

É como uma dança de dois átomos que pulsam entre dois atos

Na maneira de ambas posarem uma diante da outra

Como Borges olhando para o infinito dentro de uma minúscula esfera de metal

Circulam de uma órbita para outra no invisível grand jete

Pernas descruzadas, sinuosas, porém eretas e discretas

Abertas

Estão prontas para receber o que a outra tem a lhes dizer

Suas línguas se entrelaçam como no famoso Pas de Deux de Tchaikovsky

Dilacerando todas as nozes

Mas o que se ouve das suas vozes?

Falam em idiomas que só a alma sabe ler

A verdade é que só a pura beleza pode trazer

E o que seria ela senão a própria consciência do ser?

E cada átomo no multiverso possui a sua

Eu as observo, elas sozinhas, quietas

Sem que ninguém as incomode em sua eterna dança

Naquele supremo e suspenso entrelaçamento,

Capto um fragmento, um instante que me alcança

Um relâmpago que num rompante me ilumina a intemperança

Ninguém mais as percebe, parecem moveis imóveis

Perdidos como uma inofensiva criança

O mundo todo parado em suas voltas, nada percebem 

Esvaziados de toda simbólica esperança

Não, menos a minha consciência extática

Que contemplava tal sublime matemática

Querem saber sobre qual temática

Conversavam essas duas cadeiras emblemáticas?

Perseverança

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