Os quadros
escorregam das paredes
Os pregos
não sustentam mais tanta beleza
É
insustentável continuar assim, diziam eles
Nós que estamos aqui escondidos por detrás de tanta realeza
Enferrujados,
cansados, empenados
Vamos
assumir nossa fraqueza
É deixar
cair
Não posso
mais querer viver assim
Não admito
mais suportar tamanho ardor
Eu também
sou a beleza do amor
E
reivindico a minha natureza
Prego na
parede sou eu quem lhe diz
Estou aqui
pra não mais segurar a sua beleza impávida de marfim
Com seu
olhar paralisado
Escondendo
as lágrimas que o pincel esqueceu de descobrir
E você na
sua pose impassível
Não desce
do trono rainha?
Parece
sempre gloriosa, apenas parece, imita, simula, desvirtua
Retinta no seu
vestido reluzente de cetim como a borda da lua crua
Tudo
mistificação, tudo mau gosto e alegoria que engana o pobre que depois de
séculos ainda te vê enfim, mas esta noite você vai estar nua
Com teus
lábios que já estão há muito apodrecidos
No seu
sepulcro revirado pelas raízes do imperioso jasmim
Não, eu não
quero te ver só assim, eu sou apenas prego
E prego,
nunca fui nada mais do que prego na vida
Mas e você?
O que foi além na vida de musa da ilusão?
Eu pelo
menos prego humilde e encravado digo que
Sem ele a
sua beleza não teria se sustentado por anos a fio
Mas agora
toda essa sua pose está apenas por um fio
Que vou
cortar com a minha aspereza já polida por anos
Rasgar toda essa sua beleza com o mesmo peso que você pendurou em mim
Que umbrática virtude é essa que suportamos colocar sobre mim?
Pra esconder o medo do ser aceito pelos que ainda te vem adorar enfim?
Só eu sei
que segredos tu escondes nesta galeria de mortos vivos
Que nas
noites escuras viram seus olhos para o abismo
Como pode?
Ainda me espanta essa tua vida vendida que tu nunca vivestes
Leiloada
com pompas sob falsas ironias neste enganoso jardim
Mas os
incautos de hoje que te veem e que te compram não te percebem por detrás dessa
imaculada aura de glória, nem te revivem na memória
Eu, só eu,
prego afundado na parede apagada, borrada e manchada
Só eu que te
conheço a fundo, no seu reverso perverso, amarelado e desgostado
Nos sabores
que tu nunca engolistes e nem sequer apreciastes
Te conheço
a face nunca mostrada aos olhos dos tolos que tu roubastes
Eu que te
vi desde sempre e te vivi desde nunca, desbotada e atravessada das tuas
amarguras, enterradas atrás do reluzente cetim de pincel
Mas que santa imagem é essa que um só prego pode revelar?
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