Para Ti


Quantas vezes eu fui embora de mim?

Quantas vezes as portas entre abertas

Se fecharam em mim?

Por incauta imprudência

A gente só perde uma batalha

Quando a gente se perde de si

Será que hoje eu sei o que há em mim?

Onde está em mim?

Quem é que há em mim?

Ou o que há de mim?

Não sei

Só sei que assumo o que perdi

Mas que me achei no que perdi

E o que perdi não me achou

No que eu achei no que eu me perdi

Perdido estava estando diante de ti

Achado espero esperando voltar para ti

Copyright by Flavio Graff

A Minha Angústia de Ser 


Queria reinventar as palavras pra escrever algo que nunca quis ser

Assim elas estariam de acordo com aquilo que eu nunca quis dizer

Mas a minha nova linguística não se fazia capaz mais do que repetir

As mesmas teclas que já desgastadas do tempo de tantos intervalos

Musicados por rimas e pensamentos recorrentes, repetidos

Só me traziam a tona um sol, um dó sustenido e um si bemol

E eu que sonhava em cantar pra encantar, mas a minha poesia dizia que

O Homem era feito pra despertar e se o sono da minha melodia

Não era capaz de fazê-Lo acordar naquilo que as minhas não-palavras não teriam

Sentido, visto que o reinventado era apenas uma estratégia vulgar

De retórica, pra impressionar os predicados nominais que se deixavam iludir pelo sujeito da ação

Falsa impressão que os toques e os acordes lhe causavam na sua alma javali.

Mas por que, então, eles sempre voltavam por ali?

Queria era inventar um lugar que eu nunca estivesse existido

Par não correr o risco de me repetir e despir sem cor, sem cheiro, sem som e sem dor

Sem sentido

E nunca mais precisar ler o que eu nunca escrevi

Copyright by Flavio Graff

Rasgo a sua beleza


Os quadros escorregam das paredes

Os pregos não sustentam mais tanta beleza

É insustentável continuar assim, diziam eles

Nós que estamos aqui escondidos por detrás de tanta realeza

Enferrujados, cansados, empenados

Vamos assumir nossa fraqueza

É deixar cair

Não posso mais querer viver assim

Não admito mais suportar tamanho ardor

Eu também sou a beleza do amor

E reivindico a minha natureza

Prego na parede sou eu quem lhe diz

Estou aqui pra não mais segurar a sua beleza impávida de marfim

Com seu olhar paralisado

Escondendo as lágrimas que o pincel esqueceu de descobrir

E você na sua pose impassível

Não desce do trono rainha?

Parece sempre gloriosa, apenas parece, imita, simula, desvirtua

Retinta no seu vestido reluzente de cetim como a borda da lua crua

Tudo mistificação, tudo mau gosto e alegoria que engana o pobre que depois de séculos ainda te vê enfim, mas esta noite você vai estar nua

Com teus lábios que já estão há muito apodrecidos

No seu sepulcro revirado pelas raízes do imperioso jasmim

Não, eu não quero te ver só assim, eu sou apenas prego

E prego, nunca fui nada mais do que prego na vida

Mas e você? O que foi além na vida de musa da ilusão?

Eu pelo menos prego humilde e encravado digo que

Sem ele a sua beleza não teria se sustentado por anos a fio

Mas agora toda essa sua pose está apenas por um fio

Que vou cortar com a minha aspereza já polida por anos

Rasgar toda essa sua beleza com o mesmo peso que você pendurou em mim

Que umbrática virtude é essa que suportamos colocar sobre mim?

Pra esconder o medo do ser aceito pelos que ainda te vem adorar enfim?

Só eu sei que segredos tu escondes nesta galeria de mortos vivos

Que nas noites escuras viram seus olhos para o abismo

Como pode? Ainda me espanta essa tua vida vendida que tu nunca vivestes

Leiloada com pompas sob falsas ironias neste enganoso jardim

Mas os incautos de hoje que te veem e que te compram não te percebem por detrás dessa imaculada aura de glória, nem te revivem na memória

Eu, só eu, prego afundado na parede apagada, borrada e manchada

Só eu que te conheço a fundo, no seu reverso perverso, amarelado e desgostado

Nos sabores que tu nunca engolistes e nem sequer apreciastes

Te conheço a face nunca mostrada aos olhos dos tolos que tu roubastes

Eu que te vi desde sempre e te vivi desde nunca, desbotada e atravessada das tuas amarguras, enterradas atrás do reluzente cetim de pincel

Mas que santa imagem é essa que um só prego pode revelar?

Copyright by Flavio Graff

O saber e o não saber


E era ele que vinha me perguntando o que eu sabia a respeito dele

Eu virei o rosto e descobri que não sabia mais do que devia

Mas era inevitável a resposta que já não saída da minha boca

Acusava uma verdade que nem eu sabia que desconhecia

De onde vinha tanto mistério senão de um proposto ministério

De delações exteriores que rodeavam uma insuposta teoria

Onde o que se foi já não era mais o que não poderia ter sido

Mas que agora revelado delatava a minha mais insuspeita

Noção do que já era sempre inautorizado em mim

Mas quem era esse ele que eu já não via mais ali

Desaparecendo como que por uma transição na neblina seca

Que encobria meus pensamentos enevoados de tanto rubor

Mas ele voltou no dia anterior só pra me perguntar

Como eu poderia não ter suspeitado de uma articulação

Tão enganosa que me colocava pra não saber mais o que

Palpitava fora; ou era dentro de mim?

Mas faria alguma diferença isso agora pro que foge sem fim?

Uns falavam, outros comentavam, outros assassinavam

Muitos tinham certezas, poucos achismos, como num diabólico festim

Mas se eu não achar um fim pra esse caos que eu me meti enfim

Onde é que será que vou encontrar a resposta pra todo esse motim?

Copyright by Flavio Graff

Casco Casaco Verde


Resolvi tirar a poeira do casaco

E descobri que não só de poeira vivia o casaco 

Mas do peso dos anos que se confundiam na minha fibra implacável

Naqueles velhos anos de pós e calombos

Dos cabides que esgarçaram meus ombros 

E dos couros rudes roçando o verde da minha pele insensível

E dos botões que, pra me proteger do frio, feriram o meu casco inimitável

Mas ainda assim havia um fogo que brotava pelo forro, incontrolável

Tantas vezes detestável com seu sabor afável

Parecia que, no entanto, tinha saído de dentro dos meus bolsos rotos um peso incontestável, quase que inesperado

Insuspeitado, nunca antes revelado

Ou ali se escondiam o desfiar de uma trama suja que nunca se enunciava, inabalável

Há tempos enigmáticos

Ou acobertados pelas mãos que em busca de refúgio, se exilavam;

Ou seria por timidez que exalavam?

O mais puro odor do horror

O toque macio do bolso roto, como nunca esteve outrora

Já agora me despia do meu verde mim

Do meu dessaber de mim e eu agora estava era assim

E o que eu fazia seguido depois desse de mim?

Eu que já havia me acostumado àquele áspero mau trato das minhas mãos invisíveis, cansadas do pó que tanto me retirou do meu ético

Já não sabia mais onde se eu as queria olhar pra mim

Sim

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Uma nova maneira de olhar para si


O menino se escondia por detrás das cortinas da sala de jantar

Com medo de ver o mundo lá fora

Que agonizava e batia sem demora

O menino fazia a feira na cozinha

E, em seguida, viajava pro quarto pedalando pela sala de estar

Sem, no entanto, a espera estar

De quem nunca mais pousaria por lá

Levando com bravura na sua garupa

Bananas, batatas e esperanças

Sem falar na sua ternura

Um universo inteiro dentro de uma cesta

Como uma casca de noz prematura

Sem saber que todo mundo morava em si dentro de si

O menino se escondia e se surpreendia

Sem saber que não era preciso descortinar aquelas janelas

Para saltar os abismos

E enfrentar os abalos sísmicos

Mas ainda assim ele sonhava em erguer aquelas tais pontes indeléveis

As mesmas sobre as quais tinha ouvido, certa vez, o grilo saltitante falar

Ele que vez ou outra aparecia pra ensiná-lo a dar saltos de esperança

Mesmo sendo ele um mero grilo, sem o status de esperança

Mesmo porque nem a tal da esperança, que só chegava nos primeiros dias de primavera, vinha vindo mais… Por onde é que ela andava que não a via jamais?

Eu queria era ela pra cruzar o rio caudaloso que bordava-trans-verscente sob a alma do ninho de mafagafinhos – pra saltar e pra ser feliz

Mas que maravilha esse presente que o menino se dava agora

A descortinar o mundo sem memórias, sem temores, sem lembranças

Corajoso, tal o poeta que topou com as palavras fracas pra tecer o seu amor mais forte

Entre desrimas e desversos na deslógica do mundo

Em meio a sua desordem e seu desamor

Descongelando todo o seu torpor

E do seu leitor sem temer receber o seu calor

Na travessia daquele rio que nunca esteve tão só, então só rio

E sigo por entre naus e caravelas pintadas de dragões e feras,

Baleias, todas feias e a bela, eram vistas pela janela

Da improvável sala de estar

E ele, então; dali passeias atento por entre as rachaduras das vielas

Para te dizer que eu já menino me sinto muito infinito

Então, depois de tudo isso, o que eu faço?

Eu solto e brinco

Copyright by Flavio Graff