O menino se
escondia por detrás das cortinas da sala de jantar
Com medo de ver o mundo lá fora
Que agonizava e batia sem demora
O menino fazia a feira na cozinha
E, em seguida, viajava pro quarto pedalando pela sala de estar
Sem, no entanto, a espera estar
De quem nunca mais pousaria por lá
Levando com bravura na sua garupa
Bananas, batatas e esperanças
Sem falar na sua ternura
Um universo inteiro dentro de uma cesta
Como uma casca de noz prematura
Sem saber que todo mundo morava em si dentro de si
O menino se escondia e se surpreendia
Sem saber que não era preciso descortinar aquelas janelas
Para saltar os abismos
E enfrentar os abalos sísmicos
Mas ainda assim ele sonhava em erguer aquelas tais pontes indeléveis
As mesmas sobre as quais tinha ouvido, certa vez, o grilo saltitante falar
Ele que vez ou outra aparecia pra ensiná-lo a dar saltos de esperança
Mesmo sendo ele um mero grilo, sem o status de esperança
Mesmo porque nem a tal da esperança, que só chegava nos primeiros dias de primavera, vinha vindo mais… Por onde é que ela andava que não a via jamais?
Eu queria era ela pra cruzar o rio caudaloso que bordava-trans-verscente sob a alma do ninho de mafagafinhos – pra saltar e pra ser feliz
Mas que maravilha esse presente que o menino se dava agora
A descortinar o mundo sem memórias, sem temores, sem lembranças
Corajoso, tal o poeta que topou com as palavras fracas pra tecer o seu amor mais forte
Entre desrimas e desversos na deslógica do mundo
Em meio a sua desordem e seu desamor
Descongelando todo o seu torpor
E do seu leitor sem temer receber o seu calor
Na travessia daquele rio que nunca esteve tão só, então só rio
E sigo por entre naus e caravelas pintadas de dragões e feras,
Baleias, todas feias e a bela, eram vistas pela janela
Da improvável sala de estar
E ele, então; dali passeias atento por entre as rachaduras das vielas
Para te dizer que eu já menino me sinto muito infinito
Então, depois de tudo isso, o que eu faço?
Eu solto e brinco