
Buenos Aires 2010
Copyright by Flavio Graff
Guerra e paz
Lisboa 15/04/2021
A paz alcançada através da guerra
Mata o coração e desvalida o espírito
Retira a liberdade daquele
Que se atormenta com os crimes cometidos
Que ecoam na consciência culposa
Nos inconscientes gemidos
Do herói que podia ter sido irmão
Ou até mesmo amigo do ser temido
O inimigo
Não caiamos na ilusão desse perigo
.
Muitas vezes, a linha divisória que segrega um ser do outro numa guerra é tão frágil…
Quase sempre é um mero fato que inicia todo o desconforto, gerando o doloroso confronto
Que com um simples gesto de sair do seu lugar, de respeitar a diferença ou um simples eu te amo
Teria sido resolvido com um belo encontro
.
Ironicamente, o que separa os humanos nas suas disputas insanas
É uma tênue linha que chamamos de amor
Onde de um lado, temos aquele que ama impassível
E se conclama o libertador
Encontrando nos meios impositivos
A forma de expressar o seu mais alto louvor
E do outro, paradoxalmente
Perseguindo ideais leais, também apaixonado por esse mesmo amor
Da liberdade autoritária
Da desculpa visionária
Acende o seu calor
E ateia fogo nos campos
Do mesmo modo opressor
Mas como eles pertencem a dois partidos diferentes
Incongruentes
Com visões fanáticas
Divergentes
Se cegam
E não sossegam
No ser intransigente
No amor
À pátria
À religião
À reeleição
Ao próprio tesão
.
No torpor da sua visão
Ocorre a divisão
E como no amor entorpecido de um fã
No afã de fazer o seu melhor
Vai se moldando estéril sob o viés
Enviesado
Envernizado
Escamoteado
No que lhe há de pior
Personalista, egoísta
Estadista
Suprematista
Pelo simples fato de ter estado atado
Aos primarismos do instinto masoquista
Maltratado
Lá mesmo onde o ego se fundou cego
Teleguiado
Sem ter renunciado
Aos templos da experiência animal
.
Nesse fanclubismo excludente
Emergente
De estados diferentes
Disputamos e honramos
Dizimamos e horrorizamos
Dominamos e homogeneizamos
Descartamos e obliteramos
Sempre vangloriados como os heróis marcianos
Amaciando a carne dura na prepotência
No turbilhão da autorreferência
Contendo as mesmas inconsistências
Contando as mesmas incongruências
Cantando as mesmas evidências
Que se espelham no outro
Que se rebatem no véu do cenário fantástico
O olimpo dos deuses decadentes
Ilusórios e nada imanentes
Sem perceber que as diferenças
Na verdade são todas iguais
Como os simples pães
Das refeições matinais
.
E não seriam, assim, então
Todas as histórias de terror e glória
As mesmas de uma só histeria da memória?
.
Num jogo de azar
Pra lá do apego narcisista
Jaz no arquétipo da memória
O medo da sombra derrotista
Sem saber que no fundo, a escória
Busca sempre a sublimação do artista
Que na proposta de estética simplória
Explora a visão universalista
Na satisfação que, ao tolo, parece irrisória
E distraído e traído na própria tolice capitalista
Encontra o oposto do que é proposto
Na escorregadia pista de uma filosofia sofista
Autoproclamada
Num mundo de disfarçado desgosto
Que engolimos e tragamos
Sendo eu e já sendo o outro
Num amor vazio de agosto
De ressentimentos que nos apegamos
E se escancaram em cada rosto
De cada qual que atravessa o mundo
Com todo seu absurdo exposto
.
O grande encontro com a verdadeira natureza do amor está na reunião e na integração do universo composto.
Daí, a paz que se resolve na guerra contradizer a própria essência de busca do seu pressuposto.
Cada lado que briga pelo seu amor desordenado, gera uma conflituosa sensação atormentada de paz, esse ruminar daquele eterno desgosto.
Inquieto. Insaciável. Indisposto.
Que quer sempre obter mais um posto. Seja de gasolina, seja na bambolina dos teatros da vida. Mas que insustentável, acaba sempre sendo desposto.
Que retro-gosto sinto agora no meu esôfago.
.
Enquanto isso, os delitos e conflitos alimentados em nome de um amor débil permanecem incapazes de renunciar, e assim sendo, só levam ao arruinar.
Na essência da paz, é preciso estar amor.
Esta lei pura do incluir e do integrar, que precisamos esculpir, equilibrar para melhor respeitar.
Nunca sequer separar ou se vingar.
Pois se partimos a brigar pela luta dos nossos ideais, por mais que seus valores nos pareçam reais, contradizem a essência que traduz os movimentos das evoluções naturais.
.
Na observância de toda a natureza encontra-se a sublime integração que interliga os seres numa só criação
A paz que é onde o verdadeiro poder do ser se faz.
No não agir que é onde o verdadeiro ser é.
Sem disputa, sem subjugação. Sem corrupção.
.
Mas na nossa infância personalista.
Nos tomamos amarrados
Nos pequenos feudos dos interesses pessoais que só nos debilitam e nos limitam aos nossos mesmos erros infernais.
E assim, fracos, queremos poder o que não temos e ter o que não somos mais.
Ou nunca fomos.
E assim corrompido, o poder tenta encobrir a debilidade do ser
A paz vira arrogância. A ignorância vira intolerância.
Que vira a violação das leis se transformando na violência alcatraz.
Já que nessa incongruência, não é possível para uma consciência costumaz
Ter nem um segundo de encontro com a verdadeira paz.
Aquela única que te refaz.
Namaste
Flavio Graff
.
3.600 Segundos
Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 2021
Ao caminhar de olhos vendados observe a luz que reside em ti
Não deixes escapar esse momento de percepção sublime que te conecta com o alto
Se planejas um futuro frondoso e se esse futuro não lhe afigura segurança
Percebe as limitações internas que te vinculam aos carmas anteriores e não os julgue
Avance na direção da autorrealização
Se te censuras e te proíbes, permaneces na ilusão de uma segurança banal
Não se atinge as profundezas do oceano nas margens seguras da costa
Muito menos nas travessias seguras nos barcos que te exploram a fé
Atira-te ao mar
Enfrenta com bravura as tempestades e os tufões que arrancam a relva e a vegetação ineficaz do teu orgulho
Trabalha em direção a ti mesmo que trabalharás em direção ao todo
As ondas te levarão para mares longínquos
Aprimora a tua vontade para seguir, destemido e forte
Estamos juntos e separados ao mesmo tempo
Divididos indivisíveis
E somente na compreensão dessa unidade singular que cada um promove
Podereis encontrar-te nas tuas alegrias e nas tuas autorrealizações sublimes
Sem autoconexão não encontrarás nada reminiscente na tua vida
.
Ismael, por Flavio Graff
O difícil é a resistência
Londres 27/09/2020
Nos encontramos em constantes embates.
Embates internos, embates externos, dúvidas, ou fugas das dúvidas, como tentativa de aliviar a pressão do não compreendido, daquilo que não é assimilado, do que parece impossível de ser administrado, de tudo aquilo que me é desconhecido e, portanto, evitado.
Vivemos em verdadeira guerra conosco mesmo. Por isso, tantos almejam a paz em si, sem, no entanto, conseguir atingi-la.
Nesse processo de encontros e desencontros, a vida nos propõe desafios que nos instigam, diariamente, a perceber o lugar em que estamos. Ela nos convida a olhar para as nossas percepções, nossos sistemas de crenças, ou para a própria descrença em nós mesmos. E nos questionar. Os desafios são chamados da vida para que a luz venha à consciência. Muitas vezes eles vêm até mesmo escritos em letras garrafais para que, na miopia nossa de cada dia, sejamos capazes de enxergá-las. São desafios que clamam pela atualização e ampliação dos pequenos feudos nos quais habitamos com pseudo domínio e inteireza – em uma fantasia de si mesmo – a persona idealizada do ego desconectada de si mesmo. Estes são territórios, cultivados com afinco, que propiciam ilusório conforto no anestesiamento do profundo autoesquecimento.
Na vida idealizada da sociedade moderna, seguimos o modelo-refém do ego adoecido. Nela, os problemas são, geralmente, tidos como algo a ser evadido. Nas personalidades frágeis e atormentadas, em constante fuga, o medo de olhar para si mesmo faz com que não percebam que os problemas são simples equações cujas respostas estão à espera das nossas singulares resoluções. Na matemática da vida, a cada hora que um problema emerge é como um mistério que nos cobra um posicionamento diante de sua origem, desenvolvimento e desenlace. É um sair do lugar sedimentado; é um deslocamento da nossa postura diante de nós mesmos e, consequentemente, diante da própria vida. É um resignificar daqui, é um reavaliar dali, aprendendo a agir em conformidade com a harmonia do todo universal.
No entanto, ao enfrentamos os problemas, a nossa postura é, primeiramente, sempre de dizer que é difícil. Quando não, muito difícil. Na verdade, esta fala revela a própria resistência do ego que não quer enfrentar e resolver o problema em questão. Usamos, com isso, a impossibilidade do enfrentamento como desculpa para não empreender o mínimo de esforço para sair da zona de conforto. Ou seria mais apropriado, talvez, chamar de zona do medo?
Na sombra da nossa inconsciência jazem rechaçadas, não apenas as imagens aterrorizantes dos passados obscuros do ser, mas também as virtudes em gérmen, a espera de serem aprimoradas. O medo aqui não é apenas o de olhar para o lado sombrio e obscuro que aguarda a sua libertação e acolhimento no próprio eu. O medo também não se secciona apenas no comprazer-se morbidamente com muitas das sombras, fazendo delas um satisfazer-se sórdido e egoístico, sádico ou masoquista, em um vai e vem do entre vítima e algoz – do bonzinho ao mauzinho. Esse paradigma herói-carrasco que carregamos dentro e que reflete o conflito entre a consciência de culpa e o dever essencial de cada ser, na sua capacidade espiritual mais plena. O medo que queremos ressaltar aqui é aquele que tenta escamotear a realização última – a das suas virtudes sublimes.
Pode parecer estranho dizer isso, num mundo de uma busca angustiante por realização, mas como nos escondemos de realizarmos a nossa própria singularidade!? E tememos.
E mais, o que sobra depois de um mundo achatado pelo identitário egocêntrico?
Esse paradoxo é o resultado de uma cultura escapista e do culto ao desejo pelo objeto, pela sensação, onde a reificação do ser torna-se inevitável no mercado de compra e venda. Quando os problemas surgem e nos pedem um pouco mais de entendimento para o que não está acontecendo, a nossa primeira reação é, porém, de dizer: está difícil. Uma reação previsível ao nível do ego, que teme se desidentificar, que teme se permitir expandir, que teme desconstruir a persona, a máscara, que teme deixar ver as ilusões que foram plantadas com afinco. Com vaidade demais para acolher as sombras, com receio demais para se autoconhecer, com ganância demais para renunciar aos padrões viciados, fundamentados nos prazeres imediatistas dos instintos primários do animal que ainda reside em nós. Quando dizemos está difícil, nos acomodamos nas resistências sem nos permitir o descortinar das possibilidades infinitas que jazem adormecidas, ignoradas dentro de nós mesmos.
Os problemas quando surgem diante de nós, são como testes, sobretudo, para nossa resiliência em torno do abandono de tudo o que não nos serve mais, de tudo que não é necessário-essencial à nossa viagem rumo ao encontro de nós mesmos. Uma viagem solitária e invisível e que, por isso mesmo, torna-se desafiadora, sobretudo, em um mundo onde se clama, constantemente, pelo seu lugar sob os holofotes da fama.
Os momentos de crise, contudo, são fundamentais no desvelar de novas paisagens e na consciência do abandonar aquelas outras que já não fazem mais sentido. Ou que, simplesmente, estão nos aprisionando sob uma ideia distorcida de liberdade. E a vida, como grande mestra, estará sempre nos impressionando com os movimentos que nos tiram da zona infantil e mimada, na qual desejaríamos para sempre viver, onde tudo e todos estão sempre a nossa volta satisfazendo os nossos caprichos sentimentais. Desaprendendo estes padrões, poderemos, assim, abrir campo para experienciar o sermos responsáveis pela nossa própria felicidade e saúde mental. Não ficando à mercê dos ventos tormentosos que assolam o deserto das emoções.
Mas para que esse campo possa autêntica e singularmente se estabelecer em nós, é preciso deixar de dizer que é difícil. É preciso quebrar a barreira, cruzar a fronteira. É preciso vencer os co-modismos que nos aprisionam na identidade de um grupo, que se esconde atrás de uma máscara arquetípica e que me faz parecer que está tudo bem. Falamos aqui dos modismos seguidos pelos veneradores do fanatismo egoico. Aqui se esconde o aprisionamento do é difícil, que, na verdade, não quer mesmo é sair deste lugar. Renunciar. Pois como diria o velho ditado: querer é poder! E não é o poder de dominar o outro com o autoritarismo típico dos modismos egoicos, mas poder de autorrealização, de eu posso permitir encontrar-me nesse estado de autorrealização.
Mas do que vale esse conceito no mundo atual em que vivemos?
Vende para quem? Glamuriza o que? Gera que tipo de prazer?
Conceitos estes da cultura do imediatismo e do não duradouro. Da felicidade instantânea, dos quinze minutos de fama, que depois que passam, acumulam um torpor anestesiante frustrante, gerador de angústias inquietantes e ansiedades constantes pela repetição daquela sensação fugidia e que não se perpetua jamais. Muitas vezes só aplacado, momentaneamente, com o uso das drogas, do álcool, do sexo, do trabalho ou do consumo, todos compulsivos e que deixam um rastro de vazio e incompletude. Nesse drama de buscas incessantes ocultam-se os prazeres duradouros, onde o ser só se realiza na lei universal suprema – a Lei de Amor. O amor que não é um sentimento, mas uma ordem. E para que toda ordem exista é preciso obediência à ela. Mas não a obediência daquele que se faz de tolo. Na etimologia da palavra, obediência quer dizer: saber escutar com atenção plena. E hoje? Eu consigo escutar com atenção plena? Ou apenas repito as mesmas frases feitas que meu corpo, condicionado pelos valores sem ética, formatou das ideias de conquista e brilho. E nesse vai e vem, nem percebemos que corremos atrás de sonhos que nem mesmo sonhamos. Tentamos conquistar ilusões de outros que nos convenceram de que estas eram a nossa própria forma de devanear. Ou de se castrar.
É preciso perceber que é na tarefa invisível que se esconde a verdadeira possibilidade do encontro consigo mesmo.
E essa é a grande conquista.
O medo, porém, de sermos nós mesmos, de sairmos do identitário, paralisa qualquer movimento ou ação de expandir. E o único propósito de estarmos aqui neste planeta é expandir as potencialidades espirituais que jazem em nós adormecidas. Isso é inevitável.
Deixemos de lado, então, esse tal de está difícil, quer dizer, deixemos de lado a preguiça e a voluntariedade da criança mimada que não quer sair da infância tardia, de que não quer perceber a vida como grande oportunidade de aprendizado e voluntariado. Percebamos em cada pequeno gesto, em cada pequeno movimento da vida a oportunidade de renunciar, a ocasião de testar a nossa resiliência, a capacidade de suportar, de exercitar a resistência moral e, sobretudo, de achar as alternativas resolutivas que permanecem desconhecidas de nós e em nós. De fazer o bem.
A vida é um constante reavaliar. Não se apegue às ideias. Aliás não se apegue jamais, pois todo apego gera sofrimento e todo sofrimento gera insatisfação. E toda insatisfação virá com a necessária desilusão.
Namaste
Flavio Graff
O que é a vida?
Londres 16/05/2020
Um aglomerado de acontecimentos, aparentemente fortuitos, banais, que se juntam ao que chamamos de acaso, que vão e vem sem muita lógica. Um turbilhão de fatos emaranhados que tentamos nos apegar, organizar, racionalizar, decodificar, memorizar ou esquecer – mas, sobretudo, dar um sentido. Uma sucessão de minutos, horas, dias, meses, séculos e afetos que se justificam pela ilusória linha reta de um tempo torto que nunca irá se alinhar. Uma quimera de ciclos. Um aniversário. Um mito. Um faz de conta. Um porventura de eras geológicas impressas nas estruturas de uma rocha frágil, de um fóssil réptil, de uma onda de informações que navega pela atmosfera e colapsa ao meu olhar radar. Uma lapso. Um fóton. Um sanduíche de queijo e presunto. Uma pessoa sem assunto. Um retrato que ficou no tempo. Uma pintura que se rasgou no vento. Um relato de um antepassado em uma carta que agora em uma gaveta se esquece. Uma linha que se esvanece. Uma herança. Uma unha que se quebra sob o soco violento. Um suspiroso lamento. Uma arrogância. Um acolhimento. Uma espada que fere. Uma esfera complexa de vida que agrega outras milhares de vidas em um sistema integrado, que gira em torno de outro sistema integrado, inexplorado, incompreendido, porém, corroborado. Um sol. Uma noite. Um recomeço. Uma morte em um dia de sorte. Um renascimento. Uma palavra correndo solta no tempo. Um transporte lento. Uma aventura em direção ao desconhecido infinito do impalpável futuro que sempre se anuncia, mas que nunca chega o seu momento. Tal qual horizonte que nunca se atinge, já que sua qualidade de ser linha futura no infinito nunca me permite, de fato, alcançá-lo – o futuro que comento. Um desejo que, assim como a linha inatingível, sempre permanece como motriz das ações humanas, imprecisas, imperfeitas, inconclusas, ansiosas, desgostosas – assim como em um tormento. Uma esperança. Uma folia. Um alento. Um berço que balança. Uma mãe que se cansa. Uma mão que roça na pança. Um talento. Uma série de pequenas alfinetadas que no fim de tudo…
No fim de tudo, o que significa esse fragmento?
Nestes aglomerados de acontecimentos indeterminados, tornados palpáveis através de conglomerados de moléculas e partículas que formam o infindável mundo invisível da matéria, a vida é dual, é transversal. A vida é multiespinhal. É ser e não ser. E ao escolher ser, continuar não sendo nas intensificadas camadas intrínsecas de cada esfera habitável, no possível improvável. É ser o que não se é como projeto da linha do horizonte que nunca se atinge, nunca se conquista, e por isso pode continuar não sendo palpável e sendo meta propulsora. Mas ao passo que ela se realiza no fator desejo da própria consumação, se torna realidade virtual no ser que a enseja, sendo não sendo, vendo não vendo, agindo não agindo. A vida é ser, não só na dualidade de tudo o que há no multiverso – se há frio é porque há geleiras. Mas embaixo das geleiras, escondidas em camadas profundas, coabitam lavas vulcânicas prontas para entrar em erupção e aquecer os gélidos corações que se asfixiaram na frieza pétrea da restrita percebida do ser. A vida é multiespinhal. E ser frio é não ser sendo todos os intermédios e os prelúdios da ação vulcânica.
Ser é descrer. É desfazer os símbolos, desmanchar os arquétipos. Tirar as manchas que borram as fronteiras e impossibilitam a visão da vida multiespinhal, livre. Ser é descer. Descer do trem que me leva pelos trilhos guiados, cansados, por caminhos tortuosos e planejados, coibindo os voos altos nos planos baixos que rastreiam superfícies insondáveis e mistérios inimagináveis. Descer é caminhar a própria trilha na imensidão de sentidos labirínticos do viver. Descer da própria vertigem que desfoca e provoca alucinações do ser estático, paralítico, amorfo, político. Ser é desviver, desentendendo, desinventando, despersonificando, desopinando, desclassificando, abrindo espaços inéditos, removendo os escombros sintéticos, movendo a tralha morfética, criando meios estéticos para o acaso agir ao meu favor e deixar-me estar a favor. É desmobilizar o acaso aprisionador.
Ser é tecer nas tramas implícitas do singular para designificar e pluralizar o valor.
A vida é esse complexo transversal de aglomerados inconexos, pulverizados, distorcidos, retorcidos, feios e bonitos, que se antagonizam e se harmonizam na construção e na destruição. Se chocam e se provocam em forças ainda não compreendidas, Divinas, supremas. A vida é a não vida, é a esperança de realizar a vida que se esconde no invisível, no insensível, no além mar, no além céu, além da imaginação. A vida é o paradoxo de conter e não conter, de ser cheio e ser vazio, na forma e na desforma, na glória e na derrota, com amplitude e restrição, magnitude e insignificância. Estar e não estar eis a convecção. Já que se eu estou aqui agora falando para você, eu também não estou mais aqui agora falando para você. Ou talvez nunca estive aqui ou sempre estarei. Onde estão as vozes do infinito? Que voz é essa que ecoa no silêncio de mim? Nos meus vazios, na minha solidão, quando não estou mais em mim? E enquanto aqui estou, em outros mundos, em outras vidas, também estarei. Pois os átomos que hoje estão em meu ser, já viajaram milhares de anos luz, percorreram milhares de outros corpos luz para agora estarem no ser que habito – até quando eu não sei. E depois habitarei outros que muito menos não sei. Mas em algum lugar eu já sei. Pois em algum lugar eu já sou lá, em algum lugar eu já estou lá. Então os milhares de seres que já foram habitados por estas mesma ínfimas partículas que hoje também habitam em mim, eles também estarão falando aqui em você.
Nessa vida, eu já fui. E já sendo o outro agora, sou o que nunca mais serei amanhã. Puro devir. Puro multiagir. Um estar que também é estar em muitos, em múltiplos, em nada, no todo, no acaso e na escolha, na vertigem e na vertical, na origem e na horizontal como uma onda cabal, de possibilidades quânticas, que eclodem na minha fronte, entre o tudo e o nada do aparente resplandecente ocaso, atrás de um simples monte, onde se esconde uma inesgotável fonte de conhecimento, uma ponte para o amem.
Namaste!
Flavio Graff
Onde está a verdadeira humildade?
Londres 23/04/2020
Passamos a vida procurando a felicidade. Almejamos o amor entre os quais convivemos. Desejamos a paz interior. Aspiramos o sucesso nas realizações pessoais e profissionais. Vivemos uma vida em uma busca do que ainda não conquistamos. Alimentando-nos daquilo que nos impulsiona às novas aquisições que dão sentido aos afazeres cotidianos – do acordar em cada manhã do sonho dormido para adentrar o sonho vivido – que realidade fantástica! Estudamos, nos aprimoramos, mostramos ao mundo o que somos capazes, o que viemos fazer nessa Terra. Nos fazemos ideais! Brilhantes! Tão espetaculares que viramos o espetáculo de nós mesmos. Nos falamos infalíveis.
No ideal, tudo parece um sonho – a aclamada fantasia capitalista-moderno-tecnológica que facilita a vida de todos e nos ilude de tamanha felicidade.
Na produção deste sentimento sublime, no entanto, nos deparamos com frustrações, decepções, insatisfações, angústias, com o medo que aprisiona, com o inevitável erro e com o mais profundo vazio existencial, que se oculta por detrás das máscaras. Elementos desagradáveis, que devem ser camuflados, excluídos de um projeto tão incrível na construção desta suprema felicidade, mas que insistem em surgir e se apresentar como impreenchíveis, inevitáveis, insolúveis – incongruentes com a proposta inicial do sonho vivido. Como pode isso?
Falamos aqui de sentimentos que, pela intensidade e inconsciência das suas raízes, levam-nos aos estados depressivos, aos transtornos de ansiedade, às neuroses e aos complexos de culpa e inferioridade. Múltiplos sentimentos que foram paradoxalmente alimentados na busca deste êxito.
Mas o que há de distorcido nesta busca, então?
O simples fato dela estar baseada no nível EGO. Este nosso ideal de êxito-ego que faz com que as pequenas escolhas nossas de cada dia privilegiem apenas uma imagem restrita e ilusória de si mesmo, que busca sempre o reconhecimento no outro, o aplauso exterior. Nesta restrição, tudo que não pertence a essa pseudo imagem-escultura de aparências é excluído e abre campo para os mecanismos escapistas das fugas psicológicas de naturezas e desdobramentos múltiplos. Eu não quero ver porque não vai pertencer ao status quo; eu não posso lidar porque desconheço e temo; eu nego para não quebrar a perfeita imagem idealizada que fiz de mim mesmo. Eu fujo. Eu julgo e falo compulsivamente para afastar de mim qualquer sombra que me atormente. Eu crio tiques nervosos, ocupações e afazeres mil para desviar minha tensão eminente de me perceber.
Poderíamos dizer que estes são alguns dos mecanismos do escape egoico que mantém os propósitos superiores do EU abafados, na vivência daquilo que não se é, pelo medo de não parecer o que esperam de mim. Ou o que imagino que esperam de mim para ser aceito no mundo social. Essa autoimagem mentirosa, cultivada e desprovida de afeto e profundidade, que formulamos com tanto apego, é tal qual uma superfície espelhada que reflete, não só o rosto de um outro alguém, mas a fantasia que este outro quer ver ao se admirar nesta superfície, para também não se ver. Um jogo de ilusões.
Outro importante ponto aqui a ser observado é a vivência na busca incessante do prazer e do reconhecimento externo, mas desintegrado do todo que, ao invés de promover a autorrealização, caracteriza-se como a geradora dos tormentos e tristezas, sofrimentos e conflitos, angústias e medos – sobretudo o de ver a si mesmo. Ao permanecer no nível primário consciencial do EGO, a faixa EU que só percebe 5% da situações experienciadas na vida de vigília, esta vivência caracteriza-se extremamente desgastante, pois o consumo de energia para se manter na aparência do que não se é acaba sendo exaustiva.
Nos perguntamos, então: como equacionar a realidade da busca da felicidade com a autorrealização? Isto é algo que parece tão inadequado quanto inatingível na sociedade moderna. Aliás, um conceito pra lá de egoico esse do período moderno, afinal de contas, ele é todo baseado nas formas de produção de realidade tão restritivas e fixas quanto a consciência dos 5% de percepção. Uma sociedade de produção de consumo, baseada no materialismo, que fez do desejo pelo descartável a forma mais sustentável de manter aquilo que é insustentável. E nessa dicotomia criamos uma angustiosa doença. Eu quero ter o que não se tem, ignorando que os únicos valores permanentes são as construções do EU superior e as aspirações supremas do ser, onde reside a real felicidade. Dessa forma, vivemos descartando sentimentos tais quais garrafas pet e sacolas de plástico, tão sem valor quanto o meu amor, já que nada neste mundo é feito para permanecer, para durar, não é mesmo? Confundimos e nos identificamos com esse estado descartável e perecível de tudo, como na duração de uma respiração, que desfaz um afeto com indiferença. Vivemos uma vida de ilusão que compramos ou barganhamos na certeza de garantir a permanência e eternização de nossos atos egoicos. Em um mundo de superfícies fugazes, nada se aprofunda.
O momento e o impacto inédito da circunstância viral no mundo atual (que não é o viral da vídeo da moda), contudo, nos obriga a olhar para dentro. Nos obriga a sair da horizontalidade medíocre da vida moderna – focada no finitude materialista – e entrarmos na verticalidade profunda do ser – conectada com o ser espiritual, imortal. E mais, colocar em cheque o valor de tudo o que aí está.
O isolamento é um momento para se ver em profundidade. Para se ver a verdade em profundidade. Falamos aqui da sua verdade. Da verdade de cada um. De ser honesto consigo mesmo. Sem todo esse enfeite, toda essa decoração, sem toda a distração, sem todo esse confeito, sem todos os anestesiamentos e entorpecimentos culturais e sociais que inventamos ao nosso redor, exatamente para não ter tempo de olhar para si mesmo. Tudo que me distrai, tudo que me desvia, tudo que me entretém, tudo que me detém, tudo que interessa ao meu sucesso, mas muitas vezes não me convém, visto que os desastrosos resultados destas escolhas estamos aí a colher. Energias planetárias em desgaste, desigualdade social profunda e desumana, taxas de suicídio cada vez mais alarmantes e doenças pandêmicas que expõe a dualidade do pseudo corpo invencível em uma alma fragilizada. A tecnologia moderna resolveu o conforto, mas foi incapaz de acalentar o coração e de inspirar a alma ao seu grande salto.
A grande conquista para esse momento, portanto, é do ser em si e consigo mesmo. Mas para que essa conquista do se ver se efetue, para se ver a verdade, é preciso estar lucidamente em si, só – em solitude – este é o convite. Para se ver é preciso corajosamente estar só. E como temos medo desse encontro, não é verdade? É preciso muita humildade para fazê-lo. É preciso descer do trono rainha, descer do teu pedestal… Pois somente aquele que aprendeu a fazer de si um canal transcendente genuíno, de serviço desinteressado, pode atualizar-se, perceber-se e aceitar-se no lugar onde está e saber-se capaz de ser feliz e transmutar.
Como diria a poeta, lá mesmo esqueci que o destino sempre me quis só, num deserto, sem saudades, sem remorso, só… sem amarras, barco embriagado ao mar… Para poder largar daquele leão-ego que sempre cavalguei.
Será que o vírus vai nos facilitar a cura das sandices do egoísmo que tanto insistimos em idolatrar? Idolatrar dentro, idolatrar fora. Idolálá? Idolanaro? …Será que vamos nos curar dessa doença do fanatismo, das cegueiras, das exibições nos modernos confessionários digitais, onde nos deleitamos em expor as carências em busca de likes, de loves e de dindin e somos controlados pelo invisível big brother? Será que será desta vez que curaremos esse amor próprio que quer a todo custo se auto exaltar, se autopromover em busca de reconhecimento e do aplauso pra estancar a carência, o vazio e a desconecção com o auto amor?
Pensando aqui, agora…
Não será uma felicidade a calma, em meio as tempestades da vida?
Namaste!
Flavio Graff
Tudo aquilo que nós fazemos que não é ético nos tira a liberdade
Londres 04/04/2020
Em um tempo de isolamento é interessante nos perguntarmos: o que é a liberdade?
Muitos diriam que é a possibilidade de fazer tudo aquilo que me apraz e me satisfaz. Ter a liberdade de escolha de ir e vir, de decidir e de opinar, de discernir e de criar. Ser independente nas práticas dos seus direitos desde que eles não afetem o direito do outro. Muitos diriam que a liberdade está intimamente ligada ao arvoro do ego, na busca incessante de suprir as necessidades interiores, as vozes exclamativas e proclamativas do EU. Outros diriam que a liberdade é pautada pelas conquistas que te fazem feliz, pela realização das aquisições que te fazem pleno, completo, relevante, mesmo que isso custe a paz do outro.
No entanto, não temos como pensar sobre a liberdade sem estabelecermos uma ligação direta com o grau consciencial de cada ser. É certo que eu só posso decidir e escolher dentro das capacidades perceptivas, interiores e exteriores, que eu tenha desenvolvido em mim. Fora delas não há escolha para mim. Não há vida lá fora, nas desconhecidas realidades onde eu não sei nem quem eu sou ou o que eu poderia ser. Onde não sei nem o que existe ou o que é possível.
O que pode ser explorado em uma galáxia a dezenas de bilhões de anos luz de nós?
Não sei. E se eu não sei, onde está a minha liberdade de escolhe-las? Nesse restrito recorte que vivo, portanto, minha percepção consciencial limita e constrange a minha liberdade. Nesse contexto, podemos ainda dizer algo mais: ser quem eu estou hoje só é possível dentro de um limite de regras e parâmetros sociais, filosóficos, arquetípicos, simbólicos, todos pré-estabelecidos e que dirigem o meu olhar, o meu imaginário e o meu poder de decisão.
Cadê a liberdade, então?
Pensamos dessa forma, agimos daquela forma, escolhemos de uma outra forma, opinamos daquela mesma forma, voltamos a reagir daquela forma e vivenciamos a mesma velha forma – a da norma. Seguimos, então, nesse embotamento limitador que estabelece fronteiras entre o que eu acredito que escolho e… o que eu realmente escolho? Em uma sociedade programada pelo gosto do coletivo – pelas bandeiras, pelos times, pelas religiões, pelos discursos direitistas ou esquerdistas, feministas ou machistas, pelos partidos políticos – e pela capacidade estreita de percepção das profundas dimensões da existência de cada ser, o meu poder de decisão é podado, menorizado e achatado. A libertação deste processo paradigmático que me vende a liberdade, mas que no fundo me aprisiona, dependerá, no entanto, somente da minha capacidade ou não de aprofundamento crítico em tais esferas; pela minha capacidade de transcender a superfície das coisas e dos seres. De olhar além. De relativizar.
É fato que o meu livre arbítrio só me leva até onde eu conheço. Ou até onde eu me aventuro re-conhecer. Novos horizontes só se abrem para os que sabem se arriscar diante deste desconhecido. Tai um exercício que tanto nos libera de uma pseudo liberdade aprisionante, do medo que constrange a investigação dos próprios talentos e das potencialidades do ser. O risco! Oh risco, que pode ser apenas uma linha sobre o papel! Mas pode também se tornar uma atitude libertadora das amarras e dos medos. Mas é preciso ter coragem para se colocar em risco, ou para se riscar a própria vida nas páginas em branco, sem pauta, abrir as portas e as janelas para decolar da sala escura do próprio EU amodorrado, maltratado.
Nos achamos livres.
Mas nos sentimos prisioneiros já que nos encontramos amarrados às sombras da nossa inconsciência, à margem do nosso propósito superior – do nosso self. Podemos até escamotear, disfarçar que está tudo bem no exercício da minha liberdade – já que estou agindo segundo todos os modelos que indicam o que é ser livre, autônomo e independente. Mas, no íntimo, me sinto prisioneiro. E por que, então? Por que me sinto escravo dos ditames e de obrigações que tentam corresponder à expectativas alheias de uma fantasia de prazer e de felicidade, mas que nunca me satisfaz? Me deixando sempre querendo mais, insaciável, deprimido e transtornado? Aliás, não podemos esquecer que todo o conceito de felicidade está diretamente relacionado à prática da liberdade. Se eu me sinto livre, eu me sinto feliz. Mas muitas vezes, em busca dessa felicidade e do prazer, nos aprisionamos, sofremos. E nos mortificamos. Pois esta é uma felicidade ilusória que busca na satisfação do olhar do outro a sua autorrealização. E quando esse olhar do outro se frustra, o que acontece com a minha felicidade, então?
Vai por água abaixo a minha liberdade de ser feliz?
Ser livre não está ligado a uma questão geográfica, física, visto que as prisões estão dentro de cada um. Ser livre corresponde a uma prática em consonância com as leis universais e com os singulares propósitos superiores de cada ser. E cada um tem o seu. E, agora, muitos vão perguntar: e qual é o meu propósito? Se houvesse uma resposta aqui, pronta, estaríamos tolhendo a liberdade de escolha de cada um. Mas como temos medo de escolher por nós mesmos, de assumir responsabilidades, preferimos que alguém responda todas as perguntas por nós, que me carreguem na mão e me traduzam o que fazer, por onde ir, por onde andar. E assim, eu me sinto livre pra escolher o que já foi escolhido pra mim. Ou culpar a quem escolhe por mim, caso o projeto venha a fracassar.
Como é difícil ser livre.
Ainda mais quando ninguém pode me ensinar a ser livre. A liberdade requer a coragem de querer ser quem não se é (ainda), na experiência e prática do risco singular de cada ser, sem ostentar, sem ofender, sem transgredir, sem machucar, pois tudo aquilo que nós fazemos que não é ético nos tira a liberdade. E se na nossa liberdade não estamos em consonância com a prática do bem, na consciência de que tudo aquilo que eu penso e faço afeta o mundo, afeta o outro, mexe na trama universal, acabo por viver de maneira egoísta e arrogante. E nem no egoísmo e nem na arrogância há liberdade. Apenas aprisionamento.
Quando eu não olho pro mundo com generosidade, quando eu não penso no outro com empatia, quando eu não ajo sem a busca da recompensa, da retribuição, eu me aprisiono na expectativa de que a minha felicidade será pautada pelo lugar que o outro me deixará ocupar no mundo – mesmo que eu tenha que impor ao outro que ele afirme o que eu não estou sendo nem pra mim mesmo. Doce ilusão.
Quando eu não ajo com simplicidade de coração, quando eu não ajo com afetuosidade, quando eu não me conscientizo do lugar que eu ocupo e visto a fantasia de um eu ilusório protetivo, eu me isolo nos recôncavos amedrontados de uma prisão invisível que cheira a liberdade mofada.
Vamos abrir as celas e deixar o sol entrar e, quem sabe, assim poderemos experimentar nos colocar em risco, no desconhecido e inaugurar um outro olhar para o que me faz mais feliz. Para o que me faz realmente livre.
O momento nos pede reflexão e introspecção, não uma exposição gratuita do ego, pensemos nisto.
Namaste!
Flavio Graff
É hora de mudança
É hora de mudança de paradigmas cansados, de um modo de produção esgotado e egoísta onde estabelecemos as bases deste mundo em que vivemos.
Virulento.
Foi e é escolha nossa continuar vivendo desse modo e, exclusivamente, para esse modo, como escravos, disseminando o vírus desumano da solidão. O vírus da podridão. O virus da corrupção.
Esse fora doentio que agora vivemos é apenas mais um reflexo do que, há séculos, habita o dentro – Impensado, irrefletido, amodorrado, onde a dor é sinal de que há algo de errado. Assim como o sofrimento que sempre denota o apego.
Esse vírus que, hoje, tanto tememos é o vírus da própria alma conturbada.
Não temeremos mais a morte quando estivermos livres de produzir no nosso inconsciente esses vírus letais que nos consomem, atormentam e nos auto-destroem.
Estamos diante da crise desse modelo de produção baseado no dinheiro que gera a transitória ilusão de poder e de controle. Das posses que não possuem nada. Tudo ilusão. Que mostra o real descontrole interno em que vivemos. O real desconhecimento do espírito e de suas potências amorosas. Criativas.
Nesse movimento necessário de mudança, precisamos, no entanto, lembrar que “fora da caridade não há salvação”. Quer dizer, fora do trabalho altruísta não há transformação, não há evolução, não há quebra de paradigmas, já que o espírito não se alimenta, não sustenta a sua essência, que é permanente, nesta superficialidade de fatos sensórios e efêmeros de um mundo mercadológico, pautado por números e somas. Mas que não soma nada na vida do outro. Não. Nesta superficialidade o espírito apenas se esvazia. Se cansa. Se consome. Se deprime. Se mata.
Vivemos, no momento, o apogeu da cultura do banal, do like na minha foto, na minha página, no meu vídeo, no meu Botox, que me faz mascarado de jovem e famoso, que me rende, que me vende, que me ilude do que eu não tenho, do que não sou – amor, compaixão e generosidade. De poder ser e estar para o outro e só isso. Sem cobrar em troca. Cobramos. No entanto, queremos a paga, pois nosso senso de auto-estima está pra lá de baixo; ou apostando as suas fichas nas ilusões do ego enganoso.
O vírus atual nada mais é que a estagnação criativa do materialismo de-semtinentalisado, dementado, insustentável. A frieza de coração que é compatível com um espírito que se deixa desconhecer, pois só assim é possível manter esse modo de viver incongruente. Cruel e cego. Distanciado do real propósito do ser espiritual essencial que somos. Espíritos imortais.
No entanto, hoje, quando somos conclamados a ter um pouco de recolhimento e paz, surtamos. Pois não sabemos o que fazer, não sabemos o que somos sem todo esse aparato, sem todo esse confeito do bolo que decoramos, do bolo de confusões internas, perdidas nas ilusões; o confeito que tenta cobrir os amargos dissabores de não saber amar, de não se cultivar as esplêndidas potencialidades que cada um carrega em si.
Como diria Almir Sater: cada um carrega em si o dom de ser capaz e de ser feliz.
Mas se não trabalhamos tais virtudes, qual o preço a se pagar?
E lembrando que não estamos falando aqui da felicidade do tolo que se vende por pouco, que se satisfaz com surpresas sensórias que se esgotam na fração de um segundo, impermanentes que são, e que geram ainda mais vazio e angústia. Ansiedade e depressão.
Hoje, esse mundo egoísta pede passagem para não mais voltar. Mas é preciso querer. É preciso ouvir. E preciso refazer.
É tempo de mudar. Das loucuras insanas daqueles que estão no poder desesperadamente querendo manter as ilusões de outrora, os apegos de um tempo que não existe mais. E não quer mais resistir. Da ganância, da exclusão, da humilhação, da escravidão, da subjugação, da arrogância de uma pseudo superioridade que, no entanto, a eminência da morte coloca todos no mesmo lugar. No mesmo fim.
Será?
Ou não, pois na realidade espiritual, não se contam quantos bens eu tive na minha vida egoísta, mas quanto do bem eu fiz para o meu próximo. E para os que não estão tão próximos também. Mas um bem desinteressado. Um bem do self e não do ego.
Então, no exercício desta mudança, pergunto: qual o bem que, hoje, eu posso fazer para mudar essa situação? Pra exercitar sair do meu egoísmo.
Namaste!
Flavio Graff
Reflexões do bom dia!
Estamos numa caminhada de conhecimento e consciência! Que alegria!
Somos aprendizes nessa feliz jornada que é a vida. E nessa trajetória, precisamos aprender a desenvolver o espaço de paz dentro de nós, um espaço onde sempre estaremos seguros e equilibrados; precisamos aprender a exercitar o silêncio alegre no nosso corpo para nos salvaguardar dos perigos e desafios eminentes do dia a dia; a criar um espaço de aceitação da impermanência, onde tudo flui para o cumprimento da nossa meta superior que é a felicidade plena do espírito.
Nada é banal na vida. Nada! Tudo tem o seu significado se aprendemos na ressignificação diária, se aprendemos a resignar, quer dizer, a dar novos signos. Senão, corremos o risco de ficar parados no tempo-espaço, de ficar apegados ao que já não é mais. Ou ao que nunca foi. Como dizia o poeta: a saudade faz do que foi melhor do que era. E nesse movimento de não aceitação do fluxo constante das coisas, sempre que há sofrimento há apego a uma memória de dor ou a uma memória de prazer. E o apego é exatamente a não aceitação da impermanência de tudo que há na Terra.
A aceitação de que tudo está em movimento constante e, por isso, em continua R-evolução, não condiz com nossos estados psíquicos de estagnação e apegos aos comportamentos, ideais e imagens passadas, já que a resignação é o consentimento pleno do coração – a resignação é o nosso extremo poder de compreender profundamente os significados da vida e dos nossos propósitos dentro dela e agir de acordo com as leis superiores na nossa consciência. De compreender os movimentos de cada um como seres em evolução – e respeitar. Assim, re-signa-dos seguimos felizes, leves, livres sem carregar pesos que não são nossos, responsabilidades que são de outros, sombras devastantes, culpas que nos vitimizam infantilmente e aprisionam, assim como superegos que nos esmagam sutilmente e aniquilam a nossa mais pura alegria de viver!
Vamos meditar e agradecer pela benção de estar aqui!
Cada dia é uma nova oportunidade de ser feliz, mas não essa felicidade ilusória e passageira da matéria, mas as profundas alegrias do auto-amor.
Que possamos cultivar essa alegria em nós. Esse espaço transcendente que deixa fluir a inteligência universal por nós – o amor!
Está nas nossas mãos!
Cada um carrega o dom de ser capaz e de ser feliz!
Namastê
Beijos do amor eterno!
Flavio Graff
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E agora nada mais é uma coisa só…
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Por querer o que não se tem
Pra ser o que não se é
Pra um crescer tem o outro que ser rebaixado?
Pra um sentir a felicidade tem o outro que sentir a crueldade?
Pra um se sentir reconhecido tem o outro que ser desprezado?
Pra um ser legítimo tem o outro que sofrer a condenação?
Pra um amar tem o outro que ser humilhado?
Mas se ainda assim eu escolher olhar pra vida com generosidade isso significa que sou fraco?
Porque depois que isso tudo tiver passado
O que o mundo há de ter nos ensinado?
O que o mundo há de ter?
O que haverá de nós no mundo?
O que haverá?
O que?
Copyright by Flavio Graff
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Faço hoje o que eu não quero mais que seja amanhã o que foi ontem
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No universo a lei de evolução é educativa
Ela não é punitiva
Podemos e devemos resgatar as escolhas não tão felizes com ações positivas
A partir do momento que entendo e pondero pelos reflexos de minhas ações que escolhi mal, posso trocar o meu karma (a minha ação) por uma ação positiva – esse é o objetivo
Essa de ficar me punindo resume-se como complexo de perfeccionismo
Quer dizer EGO(ismo)
No momento que admito que sou um ser em aprendizado, em desenvolvimento
Tudo fica mais simples e fácil
E deixo de carregar o peso da tão famigerada culpa
Vivemos educados pra não admitir erros e falhas, os
equívocos, que parecem, em princípio, equívocos
Mas sem eles como aprendemos?
A sociedade exige pessoas perfeitas
Pura ilusão e distorção da nossa missão espiritual que é evoluir
Sem admitir que precisamos aprender e merecemos ser felizes, não há evolução
É preciso estar, no entanto, insatisfeito com o como se está
É preciso ter coragem de sair do rebanho e assumir a minha autonomia
Mas a maioria de nós prefere ficar sendo guiado tal qual gado
Para depois ter a quem culpar – é mais facil
Não ter que assumir minha responsabilidade diante da vida
Se eu já percebo e me conscientizo dos erros, das escolhas que não me levaram por caminhos felizes, miro nos acertos e mudo a minha conduta
Basta querer.
O que foi serviu de experiência pra fazer com que eu chegasse onde eu estou e ser quem eu estou
Portanto me orgulho disso, das minhas lutas, dos meus desafios, das minhas quedas!
Só cai quem está tentando caminhar
Vamos nos auto perdoar que é o único perdão possível e existente, sem exigir do outro a contrapartida do amor ofertado. _Pois é dando que se dá! _
Vamos deixar de nos ofender pra não precisar perdoar mais!
Vamos ser generosos conosco sabendo que somos aprendizes, caímos e levantamos em seguida!
Vamos deixar o passado que não serve mais passar!
Vamos viver com leveza e alegria!
Vamos amar mais sem exigir ser amado!
Vamos viver com serenidade interior sem exigir a paz vinda do outro!
Vamos enfrentar nossos desafios com coragem sem querer que o outro resolva nossas questões!
Vamos deixar a criança mimada de lado e tomar as rédeas das nossas escolhas e responsabilidades em nossas mãos, pois só assim há conquista da felicidade!
Ótimo dia pra vc!
Flavio Graff
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Seja como o rio…
Assim como o rio que em sua vazante deixa ir todas as águas que não lhe pertencem
Assim como o rio que nunca será o mesmo em seu constante encher e escoar-se,
Deixa tuas paisagens emocionais emergirem e esvaziarem-se em ciclos de permanentes renovações
Assim como o rio, esteja na vida a deixar as experiências por você atravessar, sem reter
Tão somente com simplicidade meditar, silenciar para melhor apreender, sem prender
Na inércia do pensamento ilusório
Aprisionamento é veneno que bebo para fingir o fugir
A vida é devir em profundo estado de transições e transcendências
Mas pra cruzar as águas escuras do rio turbulento que movemos dentro de nós e atingir a margem tranquila, do outro lado
É preciso o que a vida mais quer da gente
Coragem
Coragem de renunciar
Seja como for,
Seja onde for, renuncia a ti mesmo
Seja como o rio permitindo navegar no seu leito as belas experiências da vida com fluidez, energia, entrega e sempre com doçura
Seja como o rio, essencial à vida
Lembrando sempre que a tarefa apagada é mestra do espírito de submissão